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sexta-feira, 16 de março de 2012

Cinema, urubus e bruxarias


Não falarei sobre urubus, antes de mais. Foi apenas um trocadilho infame. 

Questões de "foro íntimo" atrasaram as postagens programadas para a semana, sorry for that. Somente hoje pude, vejam, ler o Pondé da segunda! (Mas o "The walking dead" sagrado da terça eu vi. E vou sim escrever logo sobre isso, já que a cada semana sigo mais convencida da força simbólica que o apocalipse zumbi tem em nossos dias.)

O fato é que, segundos antes de chegar ao texto do filósofo, eu lia a notícia que anuncia a estréia no Brasil da nova e deliciosa - mas nem por isso pouco trágica - comédia de Nanni Moretti: Habemus Papam. Pensei: taí, vou escrever algo sobre este longa italiano do qual gostei muito, e que, com o pretexto de desvendar os bastidores de um Conclave, trata com bom humor ímpar de alguns dos mais profundos impasses da alma humana frente às exigências da vida. Além de, muito importante, ter me ajudado a não infartar durante as várias turbulências que enfrentei num vôo de volta da Bahia neste ano. 

 

Eis que, entretanto, o texto do Pondé traz uma temática, digamos assim, mais "contundente". E que a mi me gusta e interessa há muito: a perseguição às "bruxas" realizada pelos tribunais de inquisição, sob o olhar atento e extasiado do povão. Claro que o tema vem em Pondé para ilustrar algo mais interessante ainda: a datação, digamos, da própria ideia de heresia, que transcende as "orientações" presentes nas escrituras, bem como aspectos morais e éticos, para dialogar com o dado cultural, social e político.

Bacana, não? Com algum "samba-no-pé" o assunto pode até ser linkado ao próprio longa de Moretti, já que, tanto num caso quanto no outro, é a condução da interpretação das Escrituras Sagradas feita lááá no Vaticano quem determina o desenrolar das tramas, lato e stricto sensu.

 

Acerca da questão da perseguição às mulheres e antes da leitura que ora vos recomendo, evoco duas referências fílmicas de qualidade: A primeira data de 1922, e trata-se de um documentário bastante interessante que dialoga diretamente com um dos livros mencionados por Pondé, o Malleus Maleficarum, traduzido como O martelo das feiticeiras, e que nada mais é do que um manual medieval para a identificação, inquisição, tortura e execução de mulheres suspeitas de bruxaria. O título do documentário é Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos, uma produção sueco-dinamarquesa dirigida por Benjamin Christensen que, tão neutro quanto possível, para além de descrever o processo de identificação e combate à feitiçaria, aponta a igorância, o medo e o abuso de poder envolvidos. É de arrepiar, não apenas pela qualidade, mas também pela capacidade de manter-se interessante e atraente ainda hoje, tempos em que os efeitos especiais seduzem muito mais do que a essência das narrativas. (Sobre isso cabe comentar que recentemente assisti O gabinete do Dr Calligari e penso em, em breve, juntá-lo a outras obras das décadas de 20 e 30 que são referência no gênero e escrever algo).

 

Minha segunda "evocação" é o já mencionado Anticristo (2009), polêmico longa do também dinamarquês Lars Von Trier, que traz nas pesquisas de doutoramento da protagonista - a questão do femicídio - tanto o argumento para o desenrolar da trama quanto o mote para a interpretação de uma imensa quantidade de símbolos belamente distribuídos filme adentro.

É isso! O Pondé da semana segue abaixo, mais explicativo em seu estilo do que o usual, mas divertido em sua dor como sempre.

Domingão no Parque - Luiz Felipe Pondé 

Folha de São Paulo - Ilustrada,  12/03/2012

Uma das coisas que mais me espantam é o encanto que muita gente alimenta pelos hereges medievais, associado à quase total ignorância sobre suas heresias. Confundem-se manias "teenagers" com heresias sérias.

Faça uma "regressão para vidas passadas" em alguém e verá que ela foi uma bruxa queimada na Idade Média ou algo semelhante. E ela acha isso chique porque pensa nessa "bruxa" queimando sutiã em Paris no século 14.

Não conheço ninguém que tenha sido uma aborígene insignificante (sem querer ofender os aborígenes, é claro, trata-se de uma cultura sem a qual o mundo não sobreviveria).

Coitadas dessas "bruxas". Para começar, pelo menos no universo entre o que chamamos hoje de França, Bélgica, Holanda e Alemanha (região do rio Reno), entre os séculos 13 e 15, essas mulheres não se diziam bruxas, mas sim cristãs puríssimas.

O famoso livro "Martelo das Bruxas" (Malleus Maleficarum, para os íntimos), escrito no século 15, era um manual para "lidar" com essas cristãs "béguines" (termo sem tradução decente em português porque chamá-las de "beatas" é maldade).

Quando você ouvir alguém se referir a essas mulheres como "bruxas", tenha certeza que ele não sabe do que está falando. Caras como os que escreveram o "Malleus" é que chamavam essas mulheres de bruxas. Elas falavam de Deus, de caridade, de amor, de conhecimento "direto de Deus" e seus desdobramentos (aqui residia o principal problema). A partir do século 17, mais ou menos, passamos a chamar essas mulheres de místicas.

Anos atrás, comecei a pesquisar alguns textos dessas místicas medievais. Interessava-me o fato de que muitas delas tinham sido consideradas hereges.

Entre 1994 e 2003, entre Paris e Marburg (Alemanha), me dediquei a duas delas mais cuidadosamente, Marguerite Porete e Mechthild von Magdeburg.

A primeira foi queimada como herege em 11 de junho de 1310, em Paris, place de la Grève (reza a lenda que não deu um pio enquanto ardia na fogueira). A segunda morreu uma morte razoavelmente tranquila em alguma data desconhecida entre 1282 e 1294, num mosteiro, apesar de ter passado por apuros com a Inquisição e de ter sido ajudada, pelo que parece, por um amigo ou primo abade poderoso da região.
O título do livro queimado com a Porete é "Le Miroir des Simples Âmes Anéantis" (o espelho das almas simples e nadificadas). Já o da alemã que escapou do pior é "Das fliessende Licht der Gottheit" (a luz fluente da deidade).

Ambos trazem a marca dos excessos dessa escola mística chamada de renana: elas e Deus são da mesma substância, de onde se deduz, entre outras coisas, que elas não precisavam seguir códigos morais exteriores como os que não sabiam o que elas sabiam.

Elas ("almas liberadas", "nadas divinos") eram sem "matéria de criatura", logo, Deus. A Igreja e (quase) todo mundo via nisso simples soberba desmedida.

A esse "erro de doutrina", o Concílio de Viena de 1313, sobre essas "béguines", chamou de "confusão de substâncias".

Se recuperarmos o que nos diz o grande historiador Huizinga em seu "Outono da Idade Média" (ed. Cosac Naify), a execução desses hereges era um "domingão no parque".

As famílias iam com seu ovo duro, suas músicas prediletas (estou fazendo uma adaptação irônica do texto de Huizinga aos dias atuais), seus cachorros, e faziam tai chi enquanto esperavam a criminosa chegar. Os homens comparavam seus cavalos ou carroças e as mulheres se vangloriavam, em silêncio, por seus belos seios e belas pernas. As feias, como sempre, ficavam bravas com o sorriso seguro das mais graciosas.
Mas o melhor mesmo era o interesse das crianças e os tomates podres que seus pais davam para elas para que brincassem de jogá-los nos hereges. Alguns pais se emocionavam com a precisão de alguns de seus pequenos príncipes.

Herege, hoje, é chique, mas lá, você estaria jogando pedra nela como numa "Geni". Você a veria como se vê hoje um pedófilo, um reacionário, um capitalista porco, enfim, um desgraçado, uma prostituta, que todo mundo diz que é "bonitinha", mas todo mundo detesta (menos os consumidores).

quinta-feira, 8 de março de 2012

Maternidade, Inferno e Sétima Arte - 3ª e última parte

Quando comecei a burilar a ideia que resultaria nesta primeira série temática, sabia que teria dificuldades para realizar recortes, dada a quantidade imensa de obras que, à sua maneira, dariam conta de exemplificar com qualidade o texto. 

A questão da maternidade, como condição para a vida de todas as espécies, é certamente tema fértil. O que me interessava, entretanto, era chamar a atenção para um aspecto em especial: aquelas narrativas fílmicas cujo cerne é a discussão sobre a ambiguidade da figura materna. Ambiguidade esta que se constrói no desvelamento de nuances sombrias da figura maternal sem, contudo, apagar o seu caráter intrinsecamente ligado ao amor, à entrega e  à generosidade. A questão era pensar as obras que se fazem a partir justamente da tensão - e não anulação - entre a natural relação de dependência afetiva construída entre mães e filhos e, concomitantemente, aos males, dores e conflitos resultantes desta.

Ainda assim, seria possível, por exemplo, optar por um recorte de gênero. Coisa que não fiz. Aliás, procurei chamar atenção no primeiro texto da série para o fato de o tema ser fértil a diferentes gêneros, dependendo da condução da tensão exposta, bem como da opção da narrativa por assumir ou não uma postura, digamos, maniqueísta, em relação a essa tensão. Interessavam-me menos as óbvias, embora assustadoras, mães deliberadamente más. O "mal" ao qual o "inferno" do título da série se refere não deveria ser necessariamente um traço acentuado do caráter das mães em questão. E nem dos filhos, simplesmente. Isso serviria muito bem a narrativas de horror, em que mulheres inocentes engendram o filho do "coisa ruim", como tem-se visto nos bons e maus herdeiros de O bebê de Rosimary (1968), de Polanski. Recentemente, aliás, acompanhei a primeira temporada da série American Horror Story (criada por Ryan Murphy e Brad Falchuck), em que esta questão é trabalhada de modo muito competente, numa espécie de homenagem, infelizmente só identificada por aqueles que detêm o repertório dos grandes clássicos do cinema de horror.

Jessica Lange, fenomenal como Constance Langdon em AHS, e a "encomenda"
Penso que uma narrativa torna-se tanto mais complexa e interessante, quanto mais se aproxima da complexidade e ambiguidade intrínsecas à nossa condição enquanto humanos. Nossa tendência a relativizar tudo aquilo para o que não estamos seguros de formar uma opinião é tão prejudicial quanto, entendo, a tendência que temos para não relativizar a forma como produzimos e administramos nossos afetos. 

No campo doa afetos, é preciso que se mergulhe em certezas e posições absolutas, sob o risco de ser-se rotulado sujeito inseguro, mal resolvido ou emocionalmente doente. Que pena. Creio que muito se sofre mundo afora justamente por criarmos expectativas radicais e puristas neste sentido. 

Quero dizer com isso o que muitos já sabem: amor e ódio, desejo e repulsa, paixões que são, coexistem em tensão constante, cujo limiar é sim muito tênue, muito frágil. E nós, humanos, espertinhos que somos, criamos muitas estratégias para mascarar, subverter e descontaminar os nossos afetos, de maneira que possamos simplesmente não questionar o nosso amor, por exemplo, ante os estados de angústia nos quais mergulhamos vida afora.

Em outros termos: não há lei que obrigue mães e filhos a amarem-se incondicional e deliberadamente, de modo linear, indiscutível e blindado em relação aos tropeços da vida. Mas fingimos que há, para que possamos por o dedo em riste no nariz daqueles que esperamos que nos amem, ou que esperam por nós serem amados.

Esta sede por equilíbrio e segurança é, a meu ver, a responsável pela repulsa que experimentamos ante narrativas em que filhos demonstram sentimentos "ruins" em relação a mães - e vice-versa. Reconhecer traços de nossa humanidade em personagens assim tão "cruéis" é uma forma de sermos obrigados a assumir a fragilidade de nossa própria estrutura emocional e é, pessoalmente, o tipo de catarse que mais me interessa.

Charlotte Gainsburg, premiada por sua maternidade em Anticristo
Suspeito que o meu interesse neste viés tenha se materializado a partir de Anticristo (2009), de Lars Von Trier. Ali, narrativa acerca de um processo de assimilação da perda ou, em outras palavras, de um doloroso exercício de expurgação da culpa, "ela" é a mãe que, talvez, tenha sido responsável pela morte do próprio bebê. Diga-se de passagem, em condições bastante favoráveis aos detentores do dedo em riste: durante uma relação sexual. O que se discute ali, a "condição" feminina na cultura patriarcal, remonta simbolicamente ao Édipo freudiano mas, também, à Medeia de Eurípedes.

Hoje, trago um dos filmes mais pungentes ao qual assisti nos últimos tempos: Feliz que minha mãe esteja viva (Je suis heureux que ma mère soit vivante, Fr, 2009), dirigido por Claude e Nathan Miller.

Trata-se de uma história sobre abandono. O que, por si, já permite inferir o seu desenrolar. Mas não é tão simples. A tensão narrativa vai sendo construída primeiramente, no esforço por se retratar o pequeno Thomas Jouvet, que aos cinco anos vive com uma jovem e irresponsável mãe e ajuda a cuidar de seu irmãozinho Patrick, ainda um bebê. A despeito de qualquer dificuldade, Thomas é louco pela mãe. E é este o traço de sua personalidade que conduzirá todos os acontecimentos posteriores ao período em que ele e o irmão são dados para adoção. 


Apesar da "sorte" de terem sido escolhidos juntos por um casal amoroso e bem sucedido, a rejeição de Thomas à vida que lhe foi oferecida e a obsessão em localizar a mãe para finalmente compreender suas razões dominam os 14 anos seguintes. Introvertido, agressivo, contido, o garoto busca exaustivamente por aquela mulher que prometeu a ele que viria buscá-los  - e pelo contato com as limitações e falências dela, inevitavelmente. Não custa sugerir atenção para a tensão sexual que se estabelece, embora de modo muito sutil, realmente velado. Sobre relações incestuosas, aliás, fiz algumas sugestões no segundo texto desta série.

Mais do que isso, seria dar spoilers, e o filme merece ser visto. Menos expressivo na construção de cenas simbólicas que os anteriormente comentados, Feliz que minha mãe esteja viva opta por um realismo bastante útil para a composição de sua atmosfera. Ainda assim, ressalto a breve passagem em que o menino Thomas usa a mãozinha fechada em círculo como uma espécie de luneta para delimitar o foco de seu interesse. Em tempo: o título remete a uma fala de Thomas nos instantes finais da película e estes, eu garanto, são de arrepiar! Espiem!


Ainda, caso o inferno seja a injustiça cometida contra um filho e o percurso doloroso de sua mãe para protegê-lo, há espaço para o belo drama sul-coreano Mother-em busca pela verdade (Madeo, 2009, dir. Joon-ho Bong).
E será o traçado do inferno também a dor de uma mãe cuja filha desaparecida pode ter sido morta num nos ataques terroristas em Londres, como no comovente franco-argelino Destinos Cruzados (London River, 2009, dir. Rachid Bouchareb). Mas, nesses casos, a questão da ambiguidade praticamente desaparece.

Em que Paris está a sua meia-noite?

Ah, eu poderia aproveitar o ensejo e, tendo em vista a data, escrever sobre as mulheres. Mas elas, enquanto gênero e nas suas especificidades, muito embora tenham povoado minha pesquisa de doutoramento defendida mais dois anos atrás, francamente não são algo que eu deseje por hora em meus pensamentos. Ando um tanto enjoada, inclusive, de pensar na forma como o fato de ser mulher determina a condução do meu próprio caminho. Bah. Um feliz dia para as mocinhas, de todo modo. Hoje e sempre que possível.

Desejo pensar sobre sonhos, projetos, metas, que todos os temos e cremos persegui-los. Sejam sonhos singelos ou projetos megalômanos, penso que a dinâmica de uma vida saudável e produtiva depende muito da manutenção, não dos sonhos em si, mas do nosso movimento cotidiano na direção deles. E, que interessante, existem muitas diferentes dimensões para sonhar, desde aqueles inalcançáveis projetos que servem apenas como inspiração, até o planejamento que permite a aquisição de bens, a regularização de uma situação, a oficialização de um relacionamento. Cada um sonha conforme pode e o quanto aguenta, afinal.


O texto que recomendo abaixo foi escrito pelo psicanalista Contardo Calligaris, uma leitura que eu persigo, muito embora me agrade algumas vezes mais do que em outras, por ocasião do lançamento do último longa de Woody Allen, Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, Es/Eua, 2011). Filme que, aliás, tive o prazer de assistir numa das minhas salas de cinema favoritas (Cine Livraria Cultura, o antigo Bom Bril), e na companhia de algumas das pessoas que mais tem me permitido sonhar ao longo da vida. Pelo menos, aquela sorte de sonhos que me permitem compor uma persona muito próxima do meu ideal.

Nele, Calligaris usa como ponto para reflexão as inquietações do protagonista, escritor frustado e "vendido" para o sistema, que deseja escrever alta literatura e finalmente se vê diante da possibilidade de ter seu projeto lido por grandes referências de sua biblioteca. Esta divertida pegada surreal faz do longa uma viagem deliciosa pelos delírios de qualquer leitor, escritor ou amante da literatura. Poder sentar num bistrô com seus "mestres" e trocar figurinhas com pessoas de fato interessadas no que você tem a dizer... que sonho! (perdão pelo trocadilho infame). O que Calligaris faz, entretanto, é partir desta bela imagem para nos levar a pensarmos sobre uma tentação muito grande - da qual sou vítima confessa - a de abrir mão de nossos sonhos em nome de uma temor mascarado de falhar.
Algum tempo atrás, ouvi de um grande amigo - em muitos sentidos, um "mestre" - que, para a obtenção do sucesso profissional, a diferença entre uma e outra pessoa sobre as quais falávamos,  não estaria no talento (ou sensibilidade, vocação, brilhantismo, wathever) e sim na disciplina, que ele cunhou como "pé-de-boisismo". Tenho absoluta certeza de que, no mundo em que vivemos, ele está coberto de razão. Ainda assim, meu coração taurino continua convencido de que talento é um bem inato, enquanto disciplina se adquire, tal qual músculos definidos na academia. E isso depende muito da equação que direciona os anseios para a obtenção de metas - coisa dos disciplinados, ou para o vislumbramento do sonho, coisa de boa parte dos talentosos (ou não) e dos frustrados.

A maturidade traz o demérito da consciência de estarmos sendo constantemente julgados, avaliados, rotulados, inclusive, pelas pessoas mais próximas, que até nos amam. Para o sonhador, isso não é nada bom. Não enquadrar-se num PERFIL, não atender às expectativas do meio quando se é bem jovem já não é a forma mais serena de viver. Se disso depende o pagamento de suas contas então, muito pior.

O fato é que em alguns momentos, a autocrítica e o medo do julgamento embotam os sonhos. Da mesma maneira que nos é dada liberdade para sonhar, temos a liberdade de escolher em qual direção seguir: na construção de projetos ou numa rotina de sonhos embalada por quem poderíamos ter sido se "isso ou aquilo". E tornar-se amargo é algo que ninguém quer. Daí a necessidade de se perguntar algumas vezes na vida em que Paris fica a sua meia-noite. Em que esquina escura é preciso esperar para que seja possível viver mais em acordo com os próprios projetos.

Enfim, não pretendo concluir nada. Este longo preâmbulo, antes de se tornar brega e chato, vem apenas para introduzir o texto:


É FÁCIL DESISTIR DOS SONHOS - CONTARDO CALLIGARIS

Folha de São Paulo, Ilustrada, 07 de julho de 2011

GIL PENDER, o protagonista do último filme de Woody Allen, "Meia-Noite em Paris", quer deixar de escrever roteiros de sucesso (que ele mesmo acha medíocres) para se dedicar a coisas "mais sérias" e menos lucrativas: um romance, por exemplo. Ele acumulou dinheiro suficiente para tentar essa aventura por um tempo, em Paris, como um escritor americano dos anos 1920.

Infelizmente, Pender está prestes a se casar com uma noiva que aprecia muito seu sucesso atual, mas não tem gosto algum pela incerteza (financeira) de seu sonho. Tudo indica que ele se dobrará às expectativas da noiva, dos futuros sogros e do mundo, renunciando a seu desejo. Talvez seja por causa dessa renúncia, aliás, que noiva e sogros o desprezam (todo o mundo acaba desprezando o desejo de quem despreza seu próprio desejo).

Mas eis que, na noite parisiense, alguns fantasmas do passado levam Pender para a época na qual poderia viver uma vida diferente e mais intensa -a época na qual seria capaz de fazer apostas arriscadas.

A idade de ouro de Pender é a Paris de Hemingway, Fitzgerald, Cole Porter, Picasso etc. Como disse Gertrude Stein (outra protagonista do sonho do herói), eles são a geração perdida, entre uma guerra terrível e outra pior por vir (isso ela não sabia, mas talvez pressentisse). Por que eles fariam a admiração de Pender e a nossa? Hemingway responde quando explica a Pender que, para amar e escrever, é preciso não ter medo da morte. Claro, não ter medo da morte talvez seja pedir muito, mas Pender poderia mesmo se beneficiar com um pouco mais de coragem; se conseguisse decidir sua vida sem medo da noiva e dos sogros, seria um progresso.

Concordo com o que escreveu Marcelo Coelho, em artigo neste mesmo espaço na edição de 22 de junho: uma moral do filme é que "temos só uma vida para viver -a nossa", ou seja, tudo bem sonhar com a idade de ouro, à condição de acordar um dia.

Agora, o que emperra a vida de Pender não é seu sonho nostálgico, é o presente. A nostalgia, aliás, é seu recurso para não se esquecer completamente de seus próprios sonhos. É como se, para preservar seu desejo, ele o situasse numa outra época. Mas preservá-lo de quem?

Antes de mais nada, um conselho. Acontece, às vezes, que nosso sucesso não tenha nada a ver com nossos sonhos -por exemplo, você queria ser promotor de Justiça, mas fez algum dinheiro com a imobiliária de família e aí ficou, renunciando a seu sonho.

Nesses casos, uma precaução: case-se com alguém que ame seu sonho frustrado e não só seu sucesso; sem isso, inelutavelmente, chegará o dia em que você acusará seu casal de ter sido a causa de sua renúncia. Em outras palavras, é possível e, às vezes, necessário renunciar a nossos sonhos, mas é preciso escolher como parceiro alguém que goste desses sonhos e dos jeitos um pouco malucos que usamos para acalentá-los (no caso de Pender, passeios por Paris à meia-noite e na chuva).

Voltemos agora à pergunta: contra quem Pender precisou preservar seu desejo, mandando-o para outra época? Contra a noiva que desconsiderava seus sonhos? Aqui vem outra moral do filme.

Pender não é nenhum caso raro: todos nós, em média, dedicamos mais energia à tentativa de silenciar nossos sonhos do que à tentativa de realizá-los. Muitos dizem que desistiram de sonhos dos quais os pais não gostavam por medo de perder o amor deles. Mas por que Pender recearia perder o amor da noiva, que ele não ama, e dos sogros, que ele ama ainda menos?

O fato é que somos complacentes com as expectativas dos outros (que amamos ou não) à condição que elas nos convidem a desistir de nosso desejo. É isso mesmo, a frase que precede não saiu errada: adoramos nos conformar (ou nos resignar) às expectativas que mais nos afastam de nossos sonhos. Aparentemente, preferimos ser o romancista potencial que foi impedido de mostrar seu talento a ser o romancista que tentou e revelou ao mundo que não tinha talento. Desistindo de nossos sonhos, evitamos fracassar nos projetos que mais nos importam.

Em suma, da próxima vez que você se queixar de que seu casal afasta você de seus sonhos, lembre-se: foi você quem o escolheu.

E mais um conselho: se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva do seu lado, não fuja; molhe-se.

ccalligari@uol.com.br

@ccalligaris 

terça-feira, 6 de março de 2012

Maternidade, Inferno e Sétima Arte – 2ª parte


Sim, eu prometi um francês, mas resolvi guardá-lo para amanhã. Apresento hoje um longa canadense vencedor de 25 prêmios em festivais internacionais.


Em Eu matei minha mãe (J'ai tué ma mère), de 2009, o adolescente Hubert (Xavier Dolan) é o filho de Chantale (Anne Dorval) no primeiro longa roteirizado, produzido, dirigido e estrelado pelo prodígio Dolan, que declarou tratar-se de uma obra semi-autobiográfica.
 
Há pouco eu falava ao telefone com minha mãe (é sério, não é piada) sobre o quanto acredito que, a partir de um determinado momento na vida, qualquer interferência maternal deixa de ser uma solução para tornar-se um problema. Na defesa de meu argumento, tentei explicar a ela que esta minha leitura não tem relação com o compromisso implícito que filhos detêm com pais para a velhice deles, já que, claro, este foi o primeiro entendimento dela. Nesse sentido, creio que nem caiba qualquer “porém”.

O fato é que sou facilmente seduzida pela ideia de culpar tacitamente as mães por certo retardo no amadurecimento das pessoas. Homens e mulheres, fique claro. Mais homens que mulheres, pelo que tenho visto. Mas não há regra. Independentemente, vejam, de estarem as pobres matronas cobertas das melhores intenções. 

E por favor, eu tenho coração. Não ignoro o poder e a relevância do amor materno, tampouco o vazio na vida daqueles que foram dele privados. Em última instância e na iminência da morte, por exemplo, é por ela que chamamos. Ou seja, não é sobre isso que escrevo e, sim, minha mãe vai muito bem, obrigada!

Nada disso invalida, contudo, a impressão que tenho por hora de que todos atingem um estágio na vida em que aquelas mães que se dedicam intensamente a resolver problemas dos seus rebentos (muitas vezes como um mecanismo de fuga à frustração de suas próprias vidas), desde os mais banais, como comprar cuecas, aos mais elaborados, como provê-los amplamente, tendem a fazer muito mais mal do que bem aos ex-pimpolhos, permitindo que protelem o desenvolvimento de sua capacidade e autonomia para tomar decisões, planejar, descobrir o real valor das coisas e as diretas consequências de suas ações.

Tenho outra impressão, ainda, a de que a cada geração esta postura tem se acentuado. Mecanismos de compensação para as ausências motivadas pelo trabalho ou para separações, por exemplo, resultam em adolescentes superficiais, consumistas e carentes. E aqui, quem realmente entende de comportamento humano e de adolescentes dirá que estou generalizando. E estou mesmo, e sei bem que a conduta e o caráter das pessoas não são simplesmente “condicionáveis”.

O inferno ao qual eu me refiro neste drama é construído pelo olhar do protagonista, detendor do ponto de vista segundo o qual Chantale vai sendo desenhada. Viver com sua mãe lhe é insuportável. Sem ela, entretanto, aparentemente impossível. Na direção contrária, para Chantale, dar conta da plenitude de insatisfações do inteligente e provocador Hubert é tarefa inglória, abrir mão de sua maternidade, impensável.

Entendo que o pacto de expectativas que se firma na relação mãe e filhos está, invariavelmente, fadado a frustrações. Em alguns casos maiores que em outros. Algumas vezes, melhor trabalhadas e compreendidas que em outros. Fato é que não se pode avaliar o currículo antes do parto. Nem de quem nasce e nem de quem traz à luz. E, ainda que isso fosse possível, seria apenas uma forma de criar mais expectativas - e arriscar mais frustrações. Somos sujeitos ao erro principalmente naqueles momentos em que sequer nos damos conta de que poderíamos errar.

Chantale é um doloroso exemplo disso. É dela, no limite, a culpa pela ausência do pai de Hubert. É ela quem resta estacionada (e incapaz de compreendê-lo) atravancando seu caminho. Mas, é ela quem o salva. E ele, transgressor, sensível, inteligente, inquieto, imaturo, esbraveja sua angústia. Filho “aborrecente”, ele julga absolutamente insuportáveis os gestos, gostos, modos, colocações da mãe. E é ele quem conduz a negação de sua existência, mediante um julgamento ora cruel, ora risível, segundo o qual tudo o que orbita o universo de sua mãe é kitsch, desnecessário, excessivo, superficial, declinável. Assim ele a nega – e a mata.

Assim, ele prefere a professora e o namorado. Como diria minha mãe, "os de fora". 

As tensões entre amor e ódio, rejeição e projeção, repulsa e desejo estão aqui novamente, desdobradas, diluídas, constantes.

Para completar, importante ressaltar a felicidade de Dolan na construção da atmosfera sufocante em que o jovem Hubert se encontra. As cenas em câmera lenta, bem como os sonhos e delírios do garoto dão um tom a um tempo denso, triste e delicado ao seu ponto de vista sobre a vida e o mundo que o cerca.

Ah... e há as cores... Mais uma vez, como no caso de Precisamos falar sobre Kevin, nota-se um trabalho minucioso na composição das cores a cada cena. No caso específico da “cafonice” de Chantale, por exemplo, até o revestimento do sofá e o lustre do apartamento transbordam significado.

Trata-se aqui de um capricho adolescente, do drama de uma mãe incompreendida, de um retrato da crueldade a que estamos fadados todos na contemporaneidade (dado o poço sem fundo de nossas vontades), de nada disso, de qualquer outra coisa? Fosse simples assim responder, que graça teria?


Em tempo, o cinema nos presenteia há muito com matéria muito fértil para quem se interessa pelas tensões e problemas resultantes da ambiguidade da relação mãe e filho. Obras como  La Luna (La Luna, Ita/Usa, 1979), de Bernardo Bertolucci e Mãe e Filho (Mat i syn, Rus, 1997), de Alexander Sokúrov, são apenas dois belos exemplos destas tensões que enveredam por trilhas incestuosas.

AMANHÃ, O FRANCÊS QUE ENCERRA ESTA SÉRIE.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Maternidade, Inferno e Sétima Arte – 1ª parte

OOOPS! Pois é, meus caros: no pain, no gain. Primeira lição da blogueira neófita: se você não tem certeza de como funciona um recurso ou aplicativo, não use, salvo se estiver consciente do teste. Se desconhece o caráter instável e efêmero de textos online, mantenha uma cópia salva em sua máquina. Se você não fez nada disso, mané, bem feito! Escreva de novo.
Na tentativa de corrigir uma gafe na ordem da citação do elenco do filme ao qual dedico este post, caro leitor, a brilhante pessoa que vos escreve PERDEU TODO O TEXTO. E não, ele não está em nenhum outro lugar, claro que eu já procurei.
Tentarei refazê-lo agora, com todo o risco de não passar muito perto do original. Mas aprendi a lição: backups, backups, babe!

Preâmbulo

No post original eu havia descrito detalhadamente o ponto de partida para o olhar concentrado em aspectos comuns (temáticos, estilísticos, autorais, de gênero, etc.) que resulta nos agrupamentos de filmes que tenho realizado, e que favoreceu o "start" no Projeto Mini Mostras, uma válvula de escape para os cinéfilos de botequim como eu.  Mas, ai que preguiça de escrever tudo de novo! Num novo post eu entro nestes detalhes quase off topic. Vamos ao que interessa!


Psycho

Em 1960, o gênio do suspense Alfred Hitchcock dirigiu a adaptação do romance de Robert Bloch que deu origem ao argumento de um dos roteiros mais conhecidos dos fãs de cinema de suspense: a psicopatia de Norman Bates sempre foi, mutatis mutandis, culpa de sua mãe! E todo mundo sabe no que isso deu... Mães e filhos vem digladiando ficcionalmente há muito tempo, graças à ambiguidade do complexo de Édipo.

Não, não farei aqui psicologismos baratos. Bem sei que não li Freud o suficiente para não incorrer no risco de dizer asneiras. O que segue é a tentativa de organizar e partilhar alguns pensamentos e impressões que me vem perseguindo nos últimos tempos, à medida que vou descobrindo e visitando novas ficções fílmicas. Para o caso deste primeiro post, resolvi comentar a relação entre maternidade e violência. E, ok, como não sou mãe, talvez esteja aberta a temporada de dizer asneiras sim.

A filmografia que venho acompanhando neste sentido abarca uma quantidade expressiva de obras, mas para a seleção que segue preferi me ater a alguns filmes recentes, de qualidade, e cujo cerne da questão seja explorado por um viés mais sombrio. 

Diferentes diretores de diferentes países tem direcionado o seu olhar para as relações parentais ao longo da história do cinema. Desde as adaptações de mitos e clássicos da literatura até os roteiros mais comerciais, passando de modo brilhante pelo cinema independente, a ambiguidade e a frustração, desdobradas nos sentimentos de falência e abandono, bem como na tensão entre amor e ódio, e no deslocamento por vezes confuso do desejo, a sétima arte tem sido sítio fértil para o tema.

Ainda que a maternidade não esteja no centro (e sim diluída no contexto) do enredo dos recentes e premiados  O garoto da bicicleta (Le gamin au vélo, Bélgica, 2011) de Jean-Pierre Dardenne e Em um mundo melhor (Hævnen - Dinamarca, 2010) de Susanne Bier, estes são ótimos exemplos de como crianças mergulhadas no sentimento de abandono tem potencial como protagonistas bem sucedidas em dramas.

Estabelecer um ponto de tensão aguda entre mãe e filho, entretanto, parece-me uma estratégia produtiva no sentido de alcançar os corações menos sofisticados e, concomitantemente, lançar mão de enredos polêmicos, dolorosos e, em alguns casos, doentios. Serve a alguns diferentes gêneros, como é o caso do suspense/terror Psicose (Psycho, USA, 1960), da comédia, ainda que de humor negro, como em Jogue a mamãe do trem (Throw Momma from the Train, 1987), mas serve sobretudo ao drama, como é o caso deste pesadíssimo filme que abre a série.

Metáforas da redenção


Inevitável abrir esta série falando de Kevin. Sim, Precisamos falar sobre Kevin (We Need to Talk About Kevin, UK/USA, 2011) . 


Dirigido por Lynne Ramsay e aclamado pela crítica, este drama - cuja montagem estonteante e caótica perpassa memórias e vivências da mãe de um jovem psicopata - traça uma rota dolorosa para a redenção.

Vê-se que os acontecimentos posteriores ao brutal assassinato de colegas de escola pelo adolescente Kevin não fazem da vida desta mãe novaiorquina menos infernal do que os dezesseis anos anteriores, em que ela e o filho estiveram imersos em uma rotina cruel de expectativas, frustrações, violência e incomunicabilidade, resultantes, sugere-se, da gravidez e casamento inesperados e da indesejada mudança na rotina.

Pequenas doses de rejeição e inabilidade surgem da mãe na direção de um bebezinho, mas nada que possa ser diagnosticado como depressão pós-parto. O que segue em crueldade, frieza, cinismo e manipulação, guardadas as devidas proporções, me remeteu à galeria de crianças malignas dos melhores filmes de terror.

O mérito do filme reside em grande parte na magistral atuação dos protagonistas. Tilda Swinton no papel de Eva Khatchadourian, a desafortunada (e simultaneamente insatisfeita) mãe, John C. Reilly como Franklin, o pai permissivo, e  Jasper Newell e Ezra Miller como o lindíssimo e assustador Kevin, criança e adolescente, respectivamente.

Importante ressaltar que trata-se de uma adaptação do "inadaptável" romance de Lionel Shriver, composto por cartas de Eva a Franklin que explicam o título. A crítica vem enfatizando um tom melodramático presente na película que não existe no livro. Devo dizer que, muito embora não tenha lido o romance, a escolha pela pungência, tanto no enquadramento, quando nos diálogos e na condução da ação, muito me agradou.

Um quantidade considerável de cenas tingidas de vermelho vivo -  de tomates a pichação - remetem à iminência do crime e, muitas delas, simbolicamente, sugerem um desfecho. Eva é sistematicamente perseguida, agredida e insultada por aqueles que a reconhecem como mãe do "monstro" e, resignada, lava as mãos sujas da tinta rubra que vandaliza a fachada de sua casa.

O que talvez palpitará no coração dos mais atentos, penso, será algo como: "estariam na narrativa as ações da mãe justificando as ações do filho, again, oh God?

Mais que isso, meus caros, só vendo!


No próximo post da série, um francês de arrepiar!

A invenção de Hugo e a esfinge de Pondé

Eis que andava eu extremamente compelida a finalmente organizar minhas impressões sobre alguns aspectos em particular da maternidade retratados no cinema - sobretudo francês - dos últimos anos, o que exigiu uma forte dose de veneno no meu coração, quando ontem, sozinha, resovi ir ver ao "A invenção de Hugo Cabret". Cinéfila de botequim que sou (literalmente, mas no bom sentido), e na iminência da TPM, deixei de lado qualquer visão mais pragmática da narrativa e fiz o pacto. Chorei horrores. E o meu envenenado coração mergulhou numa candura tamanha que cheguei em casa e revi o "Cinema Paradiso". Mas este post não é sobre nada disso, que ainda tenho outras ideias para um futuro comentário sobre metafilmes.



Acordei, contudo, ainda enbevecida e tomada de ternura e dei de cara com o Pondé meu de cada segunda-feira. Juntamente com o "The Walking Dead" sagrado de cada noite de terça, um vício. (Sobre isso, aliás, minha mania com zumbis, um post futuro, prometo).

Ainda que não me entenda exatamente uma discípula, sou obrigada a confessar meu apreço pelo cinismo do cara. Quem vem acompanhando a polêmica em torno da coluna da semana passada sabe que o texto não tem absolutamente nada de gratuito e, pelo contrário, é praticamente um adendo ao comentário que ele mesmo já havia publicado no final de semana, em resposta às reações negativas do público frente à alusão rodrigueana nada delicada na polêmica coluna. 
Somente o Luiz Felipe para me resgatar do risco de um diabete intelectual e me trazer de volta à realidade nesta segunda ensolarada. O post prometido deve sair do forno nas próximas horas. Obrigada!

Segue o feito:

Conhece-te a ti mesmo - Luiz Felipe Pondé
Folha de São Paulo - Ilustrada - 05/03/2012

Decidi mudar. Não serei mais aquela pessoa que acha que as pessoas não mudam e que não há história, mas sim um eterno retorno do mesmo. Nietzsche nunca mais, só Rousseau e seu estado de natureza angelical.
Acredito agora nas primaveras que cortam o mundo. Fui à livraria mais próxima, ou melhor, ao iPad mais próximo, e comprei um livro que me indicaram: "Dez passos para ser um novo Pondé", autoria de um certo sábio chinês que talvez seja um neto de coreano nascido na Califórnia de pais porto-riquenhos.
O primeiro passo é aprender a respirar. Sou dono da minha respiração agora. Em seguida, alimentação. Nunca mais carne vermelha. De início, ainda frango e peixe, mas em breve pretendo me tornar um amante das rúculas e alfaces, mas sempre pedindo perdão por precisar tirá-las de sua vida doce e promissora fazendo fotossíntese. Coca-Cola, nem pensar. Além do mais, é americana! Vinho, só natural.
Um segredo: continuarei a ir aos EUA porque um tênis lá custa cinco dólares! Irei escondido e voltarei com dez malas. Mas, temos ou não direito a ter tênis baratos? Acho uma falta de respeito proibir as pessoas de comprar tênis e jogos eletrônicos baratos em Miami.
Amarei a África. Abraçarei todas as ONGs do mundo. Direi às pessoas que elas são lindas e que o mundo faz parte de uma confederação cósmica. Os maias foram o povo mais avançado da história e decidi frequentar escolas aborígenes para aprender seu complexo modo de criar sociedades mais justas.
Religião: nunca mais essa coisa pesada de judaísmo e cristianismo, religiões que nos estragam com sua moral "imposta". Candomblé também não. Claro, como é religião africana, seria aprovada pelo meu novo eu, mas em alguns terreiros baixam pombagiras, e elas foram prostitutas e adúlteras, e não quero nem chegar perto disso! Aliás, decidi que essas coisas não existem.
Minha nova religião será uma forma de budismo light, aquele tipo que cultua a energia do universo. Sei que existem outros tipos, mas aqueles são autoritários. Toco as plantas com mais cuidado e percebi que elas são mais sábias do que Freud. Claro, comprei uma estatueta de um golfinho e joguei fora aquela esfinge do Édipo horrorosa que minha irmã me deu em Londres.
Nunca mais tragédia grega, agora só revistas que nos ensinam como o mundo pode ser melhor se arrumarmos nossos sofás de forma mais harmônica com as estrelas. Contratei uma mestra em decoração oriental. Ela é uma mulher supermagra e equilibrada. Imagine que curou um câncer em seu gato com reiki.
Direi para todo mundo que não gosto de dinheiro e que gosto das pessoas pelo que elas são e não pelo que elas têm. Perguntarei aos artistas com consciência social o que posso dizer e fazer.
Vendi meu horroroso carro inglês. Estou aprendendo a andar de bike (já sabia andar de bicicleta, mas bike é outra vibe). Ainda que tenha que atravessar as ladeiras das Perdizes para ir trabalhar (pena que ainda tenha que fazer parte desse mundo terrível de pessoas que trocam sua dignidade por dinheiro), já me explicaram que cada pedalada evita duas moléculas de gás carbônico, o que faz de mim uma pessoa com pegada de carbono sustentável.
Sexo, agora, só verde. Se provarem que esperma polui o mundo, evitarei o orgasmo, assim como na Idade Média dizem que mulheres santas evitavam gozar para serem puras aos olhos de Deus. Enfim, sinto-me leve com meu novo eu. Provavelmente, serei mais amado, e isso é que conta, não? Acredito, agora, num mundo melhor.
De repente, acordei. Sentei na cama. Ao lado, minha mulher dormia, com seu corpo de pecadora.
Fui até a biblioteca e vi os livros de Nietzsche, Freud, Pascal, Dostoiévski, Cioran, Bernanos, Roth, Camus, Nelson Rodrigues me olhando com olhos de profetas.
Os dedos indicadores em riste apontavam para mim.
Ao lado de minha estatueta da esfinge de Édipo, lia-se: "Conhece-te a ti mesmo". Voltara a ser eu mesmo. Esse miserável escravo das moiras, de felicidade complicada, doçura rara, boca seca e olhos vermelhos. Reconheci-me: sou o mesmo pecador de sempre, sem esperança.
ponde.folha@uol.com.br

PRÓXIMA POSTAGEM: "Maternidade, inferno e Sétima Arte" (será que agora vai?)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Como ganhar um Oscar - João Pereira Coutinho

Agora que a Academia de Hollywood já distribuiu os seus prêmios, imagino que o leitor esteja a sentir uma certa frustração.

Durante semanas, foram incontáveis os artigos sobre os filmes e atores indicados.

Mas em nenhuma matéria foi possível ler a resposta à questão sagrada: como ganhar um Oscar? Que posso eu fazer para subir naquele palco, segurar o eunuco dourado e agradecer à minha mulher, à minha mãe, à minha amante?

Fiz os meus estudos. Estou disposto a partilhar algumas conclusões com os leitores. Uma primeira certeza: esse ano foi atípico. E exceções não confirmam a regra. Vamos às regras.

Primeiro, as senhoras. A leitora deseja mesmo ganhar um Oscar de melhor atriz? Meta uma coisa na cabeça: ao contrário do que se diz, Hollywood é uma instituição essencialmente conservadora. A visão que tem da mulher é feita de extremos caricaturais que não mudam há quase cem anos.

A mulher que Hollywood aprecia habita sempre um dos extremos: ou é santa ou é prostituta.
Jennifer Jones foi santa Bernadette em 1943 ("A Canção de Bernadette"). Ganhou. Susan Sarandon foi freira em 1995 ("Os Últimos Passos de um Homem"). Também ganhou.

Se cruzarmos a linha, encontramos a mulher prostituta: Elizabeth Taylor foi uma em "Disque Butterfield 8" (1960). Jane Fonda repetiu a dose em "Klute - O Passado Condena" (1971). Ganharam ambas.
E quando não são santas (ou prostitutas), convém serem princesas (ou desequilibradas): Ingrid Bergman bateu a concorrência como Anastácia (1956); Audrey Hepburn passeou por Roma sua elegância real em "A Princesa e o Plebeu" (1953). Vitória.

Se a leitora prefere o desequilíbrio, Vivien Leigh ("Uma Rua Chamada Pecado", 1951), Joanne Woodward ("As Três Máscaras de Eva", 1957) ou novamente Elizabeth Taylor ("Quem tem Medo de Virginia Wolf?", 1966) são alguns exemplos de sucesso no excesso.

Um conselho: não experimente a deficiência física profunda. Isso é coisa para machos. Quando muito, Hollywood tolera a mudez. Marlee Matlin ("Filhos do Silêncio", 1986) ou Holly Hunter ("O Piano", 1993) ilustram o que digo.

Moral da história? Um Oscar para melhor atriz será praticamente imperdível se a leitora encontrar o papel de uma mulher com dupla personalidade: religiosa durante o dia, garota de programa à noite. Ser surda-muda também ajuda, mas convém não exagerar.

E os homens? A escolha é mais variada. Mas o conservadorismo de Hollywood mantém-se.
Há papéis que o leitor deve evitar por seu evidente anacronismo. Pistoleiros do faroeste? Sim, funcionou com John Wayne ou Lee Marvin. Não funcionou mais com Clint Eastwood ou Jeff Bridges. E sobre as figuras bíblicas, esqueça: depois de "Ben-Hur", a fonte já secou.

Para os homens, Hollywood sempre gostou de figuras de autoridade. Escolha uma. Podem ser estadistas (Thomas More, Henrique 8º, Disraeli, Gandhi, George 6º etc.).

Mas também podem ser padres, policiais ou militares. Spencer Tracy, em "Com os Braços Abertos" (1938), foi padre. Bing Crosby, em "O Bom Pastor" (1944), também. E Gary Cooper ganhou dois Oscar seguindo o conselho: primeiro, foi sargento em "Sargento York" (1941); depois, xerife em "Matar ou Morrer" (1952).

Para além da autoridade política ou moral, existe ainda a autoridade física. Pugilistas ocupam o topo: Wallace Beery ("O Campeão", 1931) ou Robert De Niro ("Touro Indomável", 1980) são a prova de que Hollywood gosta de gente que bate.

Se, pelo contrário, o leitor optar pela fraqueza -física ou mental- convém descer mesmo aos infernos. A deficiência tem que ser severa (Jon Voight, paraplégico; Dustin Hoffman, autista; Daniel-Day Lewis, paralisia cerebral).

Hollywood sempre gostou de cegos (Al Pacino, Jamie Foxx). Há aqui um padrão: mudez para as mulheres, cegueira para os homens.

Infelizmente, concluo com tristeza que Hollywood despreza jornalistas como eu. Mas isso não significa que "jornalista" seja papel a evitar. Clark Gable foi um em "Aconteceu Naquela Noite" (1934).

Se juntarmos ao papel alguns comportamentos próprios da profissão que Hollywood também aprecia -um certo gosto pela garrafa (Lionel Barrymore em "Uma Alma Livre", 1931); Nicolas Cage em "Despedida em Las Vegas" (1995) e evidentes distúrbios de personalidade (Jack Nicholson, sempre Jack Nicholson), posso mesmo concluir, sem exagero, que a minha vida merecia um Oscar.

jpcoutinho@folha.com.br

Folha de São Paulo - Ilustrada - 28/02/2012 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

#ficamasdicas

Tá aí, com vontade de ler algo interessante, mas no seu feed do face só aparecem selos de autoajuda, memes e particularidades da vida de seus "conhecidos"?

Além da coluna da direita aqui no blog, onde listei blogs legais que acompanho, resolvi colocar aqui alguns dos sítios que conheço, frequento e recomendo, seja para trabalho ou entretenimento:

Se você quer ficar por dentro no que rola no cenário das artes no Brasil:
http://bravonline.abril.com.br/
http://revistapiaui.estadao.com.br/
http://www.verdestrigos.org/sitenovo/site/novaversao.asp

Se curte filmes e séries e quer dar uma espiada no que anda disponível online, para além do universo dos blockbusters:
http://legendas.tv/

Se precisa pesquisar, estudar, ou quer ler em meio digital:
http://livrosdehumanas.org/

Agora, se o lance é uma polêmica, uma lista divertida, ou curiosidades pra relaxar:
http://puxacachorra.blogspot.com/


Com o tempo, vou ampliando as dicas!

;-)


Imaginar é preciso...

 

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore foi premiado pela Academia em 2012 com o Oscar de Melhor Curta-Metragem de Animação. Quinze minutos com esta pequena e delicada peça são suficientes para restar encantado. Definitivamente, ler é, antes de tudo, navegar.
Informações sobre esta produção estadunidense em: http://www.imdb.com/title/tt1778342/

Apresentação


"Os Cães de Santiago"  é o título para um romance ainda não escrito. Preferencialmente, que verse sobre a desumanidade (e possivelmente jamais escrito por mim, já que a prosa de ficção, para além de minhas atividades acadêmicas, jamais me pareceu matéria para a qual eu tenha qualquer habilidade). Estive em Santiago em julho de 2011 e notei por lá uma quantidade impressionante de belos e enormes cães errantes. Doces, elegantes e simpáticos andarilhos. Aos quase 35 anos, já não tenho pudor nenhum em admitir que minha admiração e afeto pelos não humanos suplanta qualquer traço dela que eu nutra pelos próprios. Ocorre que, em uma tarde daquele julho, sentada em frente ao Mercado Municipal da capital chilena, um perro enorme veio acomodar-se sossegadamente bem aos meus pés. Pensei n'Os Cães de Santiago como um belo título, fosse para o que fosse.

Procurei este espaço pela absoluta impossibilidade de abandonar a minha vida virtual, por menor que seja o tempo disponível. Nos últimos dias, venho experimentando uma espécie de crise de abstinência. Hábitos são hábitos. Minhas leituras matinais, o flanar pelas informações culturais, os pitacos no comportamento alheio, as dicas de filmes, os poemas preferidos, as canções e imagens que me tocam, enfim, tudo o que vinha circulando nos últimos três anos no meu perfil do Facebook recentemente deletado deve aparecer por aqui. É a minha primeira experiência como blogueira e tenho a impressão de que será mais livre, menos engessada nos padrões das redes sociais. Sinto uma espécie de necessidade de amadurecimento autoral, algo como uma seriedade descompromissada, mas que, contraditoriamente, se origina na crença narcísica de que tenho um compromisso com aqueles que antes me "liam" e que abandonei. Ninguém torna públicos seus pensamentos e sua rotina se não dispõe disso, mas creio que ainda seja cedo para classificar ou nomear qualquer coisa. Talvez este novo contexto me estimule a escrever mais, "ensaiar" mais, para além dos recortes e elencos que venho realizando. Afinal de contas, foi o prazer em escrever o meu primeiro impulso na direção da formação que me fez profissional das Letras. Em algum canto de mim, tantos desencantos depois, ele ainda respira.

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Quem sou eu

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Brazil
Tento pensar para além do senso comum. Em alguns dias sou mais feliz nisso do que em outros. Quem eu sou não pode ser definido pelo que tenho feito apenas e, francamente, é o que menos importa. Entretanto, para quem quer saber sobre o meu trabalho, o caminho oficial é o http://lattes.cnpq.br/2396739928093839