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segunda-feira, 5 de março de 2012

Wisnik e a sessentona do Laerte

No último sábado, vasculhando insone algo interessante para ler, eis que surge na treva da madrugada esta pílula de lucidez do Zé Miguel justamente sobre o Laertão, meu candidato a prefeita de Sampa...rs... Um xuxu!

Causando - JOSÉ MIGUEL WISNIK
O Globo, 03/03/2012

Antes de mais nada, Laerte é um humorista poeta atuando nesse gênero da narrativa visual curtíssima que é a tira de jornal, conhecido de longa data por criações como os Piratas do Tietê, Los Amigos, o super-herói Overman. Respeitado como um dos melhores do gênero, virou figura nacional polêmica ao passar a se vestir como mulher e ao reivindicar o direito de usar banheiros públicos femininos.

Como é um rapaz de 60 anos sem notável sex-appeal nem masculino nem feminino, e já com uma identidade pública anterior, a sua metamorfose nessa curiosa espécie de tia tem causado um espanto mais variado e difícil de definir do que se fosse provocado pela mais desvairada traveca. É que é mais fácil entender, em geral, a viragem de homem em mulher, e de mulher em homem, do que a permanência nessa zon inclassificável em que o sujeito não cabe nos compartimentos dos gêneros, a exemplo dos banheiros.

Gostei de vê-lo, e vê-la, no “Roda Viva”, da TV Cultura. Laerte, desembaraçado e falante, não parecia em nada com aquele que vi em outras situações, ensimesmado e travado no limite da mudez doentia. As narrativas do seu processo falam de uma crise pessoal profunda em que se confunde a perda de um dos seus três filhos, em acidente, com uma dúvida radical sobre o sentido do trabalho e da vida. Dessa crise paralisante ele saiu através de uma decisão cujo caráter terapêutico, no seu caso, não há como colocar em dúvida: vestir roupitas de mulher, calçar sapatos de salto médio, usar brincos, aplicar-se uma maquilagem leve. A montagem dessa senhora francamente discreta e bem cuidada, ciosa dos seus predicados e dos seus direitos, teve o condão “milagroso” de liberá-lo de sombras e fantasmas.


Fonte: http://i0.ig.com/fw/5x/v6/xv/5xv6xvkmve70spn2tacjr9fil.jpg

O que saiu, afinal, desse armário? O mais curioso é que não se trata simplesmente de uma opção pela homossexualidade, mas antes de uma opção pelo vestuário que confunde os gêneros e rasura as suas fronteiras. Em outras palavras, quem saiu literalmente do armário não foi um homossexual, mas as roupas que vestem um bissexual. A ênfase está em outro lugar.

O direito à opção sexual não se coloca em discussão, está dado como princípio. O que envolve discussão, aqui, é o direito à fantasia, no sentido mais imaginário e no sentido mais literal do termo. Talvez as fantasias cotidianas sejam o núcleo mais forte a alimentar o gênero cartum e as tiras de jornal, seu grande e inesgotável assunto.
No caso de Laerte, sem a menor dúvida. Ele é um mestre da plasticidade desnorteante das nossas fantasias. Já se disse que o processo começou lá, com seu personagem Hugo Baracchini,  que, a pretexto de fugir de uma perseguição mafiosa, começa a se travestir de Muriel e acaba adotando o crossdressing.

O que começou na fantasia ficcional se misturou com a realidade quando Laerte resolveu seguir o caminho apontado pelo seu personagem. E, ao fazê-lo, pôs em cena a realidade dos papéis, masculinos e femininos, como feita de fantasias. Evidentemente, não é a toda hora que alguém, ao trazer à tona as suas porções femininas, leva a coisa tão à risca a ponto de sair se vestindo de mulher, ao mesmo tempo reservada e coquete, com espontânea e construída naturalidade. Acho que o crossdressing de Laerte fez com que ele se desvencilhasse de um nó pessoal, pondo-se num desses lugares tão expostos que fazem o sujeito se sentir inatingível, a começar pelos seus próprios medos, que parecem magicamente anulados pela estratégia inesperada. Mais que isso, a solução terapêutica, no caso dele, é uma extensão direta da sua condição de artista. 

A montagem bizarra e normalizada de Laerte feminino não deixa de ser uma obra do humorista. Humorista poeta, já disse. Ele-ela encarnou o cartum. Numa coluna chamada “Direitos e avessos”, eu propus aqui um esquema provocador para as identidades masculinas, dizendo que há quatro tipos de homem: o meio-veado (a maioria, saiba disso ou não), o veado inteiro (que o Ocidente recalcou mas que retornou a exigir o seu lugar discursivo pleno), o meio veadointeiro (para dizer em poucas palavras , o inteiro que não se assume) e o veado inteiro-e-meio (a bicha louca, que se afirma exorbitando).

Não vou repetir minhas explicações sobre essa arma lógica de utilidade antimachista. O que eu quero dizer aqui é que a montagem do poeta humorista Laerte produz uma espécie de desvelamento dessa lógica total, porque a personagem que ele produz é um insólito espécime de meio-veado-inteiro-e-meio, desnudando todas as fantasias ao mesmo tempo e livrando-as das classificações.

O tabu dos banheiros é uma decorrência concreta diante da qual Laerte resolveu não recuar, programaticamente, confrontando a senhora que expressou a recusa a conviver no sanitário coletivo com esse ser excrescente. Há lugares no mundo onde o tabu da separação dos gêneros não vigora para banheiros, nem para saunas públicas. É um sinal de civilização, a ser atingido.

 No Brasil, esse marco civilizatório é afrontado diariamente, antes disso, nos ônibus apinhados e nos trens. Achei uma passagem às vezes muito direta, no Laerte do “Roda Viva”, do sentimento da conquista pessoal para a conquista coletiva, como se uma coisa resolvesse a outra, com a suspensão imediata da divisão dos banheiros em gêneros. Imediatismo natural em quem fez o lance que fez, abrindo caminhos a percorrer.

sábado, 3 de março de 2012

A arte de "prosear o nada", segundo Álvaro Pereira Junior

A leitura do artigo de Pereira Jr na folha de hoje, que versa sobre o novo romance de Ali Smith (The But for The) me fez lembrar uma charge do meu candidato à prefeitura de São Paulo, o cartunista e atualmente crossdresser, Laerte, cuja candidatura (até onde sei, fictícia, meme do face) tem um dos grandes slogans dos últimos tempos: 

"Se for para ser humorista, que seja gênio! Se for para ser branco e classe média, que seja revolucionário! Se for para ser homem, que seja um que respeita as mulheres a ponto de se tornar uma! Se for para ser mulher, que tenha colhões! LAERTE PARA PREFEITA, EU ACREDITO!"



Para além da resenha do romance em particular, vale a reflexão sobre as tendências da ficção contemporânea que, aos olhos do colunista, tem bebido sobremaneira na fonte da metalinguagem e do academicismo, em detrimento da criação de enredos envolventes. Recomendo!
LIVROS SOBRE O NADA - ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR 
Folha de São Paulo, Ilustrada, 03/03/2012
Pouco acompanho a produção contemporânea de ficção, mas recaídas acontecem, e uma delas é o tema de hoje: o romance "There But for The", da escocesa Ali Smith (ainda inédito no Brasil), um dos mais citados nas listas estrangeiras de melhores de 2011.
A história é assim: um pessoal se reúne para jantar e, por razões desconhecidas, um dos convidados se levanta, tranca-se em um quarto e dali não sai.
A partir daí, não acontece absolutamente nada. Mas descobrir que não está acontecendo nada não é missão fácil. É preciso decifrar a prosa de Ali Smith e desbastar a estrutura narrativa. A autora é do tipo que, se pode complicar, complica.
O que, em si, não é mau, como sabemos nós, leitores masoquistas. Se é para sofrer, a gente topa. Mas tem de haver uma troca, um pote de ouro no final desse caminho tortuoso. Ou pote nenhum -mas aí é preciso que o percurso, ainda que difícil, apresente beleza e originalidade.
Infelizmente, não é o caso de "There But for The". Ele não tem uma história boa para contar. Tampouco a estrutura é super inovadora. Em princípio, nem valeria ocupar este espaço. Só está aqui porque, talvez, seja um símbolo importante do estado atual da literatura.
Que virou, a meu ver, essa coisa psicologizante, de fluxo de consciência, jogos de palavras, falação interminável, em geral na primeira pessoa. Narrativas que só se ocupam de si próprias. É só uma tese, admito, e não das mais elaboradas. Mas "There But for The" se encaixa perfeitamente nela. Uma literatura que trata do vácuo. E que, detalhe importante, tem como único referencial o próprio mundo dos livros.
Dei uma olhada na biografia de Ali Smith. Bingo. Formada em letras na Escócia, depois pós-graduação em Cambridge, depois participações em sabe-se lá quantos grupos de estudo... Vida fora dos livros? Não encontrei.
No romance, a literata Smith tem um "protagonista": o solteirão de meia-idade Miles Garth, aparentemente assexuado e, claro, literato também. É ele que se tranca no quarto. O jantar acontece em Greenwich, subúrbio ao sul de Londres, sede do observatório famoso.
O evento é promovido por um casal yuppie que, para parecer moderno, reúne em casa, às vezes, pessoas de perfis "exóticos".
À mesa, estão Miles, seu conhecido Mark, um casal meio bronco, um casal erudito e a filha deste, Brooke, superdotada de nove anos, que os pais tratam como adulta e levaram ao jantar sem avisar os anfitriões. É um ambiente tenso.
Com perdão da heresia, lembra um pouco a refeição oferecida logo depois do velório de Marmieládov, em "Crime e Castigo". São semelhantes a atmosfera pesada, o desconforto, as ironias, as acusações.
Mas, enquanto a profundidade psicológica dos personagens de Dostoiévski é objeto de estudo há quase 150 anos, na cena criada por Ali Smith é tudo esquemático e politicamente correto.
Os donos da casa são cabeças de vento fúteis, classe média em busca de status. O casal negro é sensato e erudito. No outro casal, xucro, o marido é homófobo desbocado, mas mantém, secretamente, um caso gay com outro convidado, Mark, que é judeu, filho de uma famosa artista suicida. Isso não é uma lista de personagens. É um inferno de boas intenções.
Que fique claro: "There But for The" não é banal ou mal escrito. Smith mostra imaginação e erudição. Brinca à vontade com as palavras, faz referências a dezenas de livros, parodia autores etc. etc.
E a estrutura é criativa. Conta a história de Miles Garth sob a perspectiva de quatro pessoas que mal sabiam quem ele era: uma conhecida de adolescência; Mark (que o levou ao jantar); a mãe velhinha de uma ex-namorada; e a menina Brooke. Mas não passa disso.
Ouvi recentemente de um amigo, infinitamente mais bem informado que eu sobre literatura atual, que ele nunca tinha ligado para histórias policiais, mas vinha se interessando cada vez mais pelo gênero.
Compreende-se: bons enredos estão em falta. E os romances policiais são uma ótima fonte. Como o "Agente Secreto" (1907), de Joseph Conrad, também passado em Green-
wich, e ao qual existem várias referências em "There But for The". O livro de Ali Smith teve ao menos esse mérito. Fui buscar "O Agente Secreto" na estante. Uma história, afinal.
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