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quarta-feira, 7 de março de 2012

Eliane Brum e a sabedoria de envelhecer sem cair no ridículo


"A juventude é um erro que o tempo corrige", meus caros. Palavras de uma antiga mestra.

Associar o tempo de vida à experiência e esta à sabedoria já foi uma forma de organizar e hierarquizar sociedades. Indígenas viveram assim, outras sociedades antigas também. A figura do ancião, entretanto, é tão menosprezada em nosso tempo - desprezada mesmo, vez que nada significa além de iminência da morte - que impulsionou uma corrida pela "recuperação" estética e comportamental da juventude que, muitas vezes, beira o caricatural. 

Sem cair no reducionismo da autoajuda, creio que todas as idades tem o seu tempo e ter uma "alma jovem" não precisa ser, nem de longe, sinônimo de comportamentos imaturos, posturas anacrônicas e expressões eufêmicas que buscam mascarar as "cicatrizes" impressas em nosso corpo e espírito a medida que vamos vivendo. Entretanto, uma sociedade que avalia e organiza seus membros pelo que fazem, tem e parecem naturalmente ignora -  ou pelo menos julga secundário - o que viveram, conhecem, sabem, são.

 Assim como Eliane Brum neste interessantíssimo artigo, procuro aceitar a minha finitude inevitável com a consciência de que eu e o tempo temos feito uma troca relativamente justa. O politicamente correto expresso pela linguagem, aos meus olhos, mais do que um exercício de eufemismo mental, é só uma das muitas formas atuais de manifestar a nossa falta de bom senso.

ME CHAMEM DE VELHA - ELIANE BRUM 

 "A velhice sofreu uma cirurgia plástica na linguagem"

 Revista Época,  20 de fevereiro de 2012

Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”.  Pensei: “roubaram a velhice”.  As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.
Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.

A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.

Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interessante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum.  Que ninguém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.

A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.

Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor.  Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.

Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua.  O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.

Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está.  Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.

Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.

Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”?  Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam...”.

Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição.
Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem.  O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para descobrir com quem estão falando.  Mas se existe algo bom em envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é grande.

Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada do que sou hoje.

Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar.  É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.

Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.

Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras.)

sexta-feira, 2 de março de 2012

A deselegante ira de Medea


Antes de mais, quero ressaltar a natureza puramente reflexiva do que segue, nada comprometida qualquer esforço por reforçar meus argumentos a partir de citações de autoridade. Nem socióloga, nem antropóloga, tampouco filósofa ou psicanalista, o que se projeta de mim neste espaço é uma tentativa de articulação de pensamentos dispersos e fragmentários.

Ocorre que há dias em que um sujeito desperta mergulhado numa vontade furiosa de gritar. Mais ainda, movido por uma energia daimônica que o impele a dizer todas as suas verdades ao mundo, de esbravejá-las, de verem transformados sua boca e braços numa poderosa metralhadora apontada para a humanidade (aqui, a imagem da moça com a metralhadora acoplada na perna amputada no “Planeta Terror” do Tarantino me provoca um risinho sacana). 

O meu ponto é o seguinte: creio que seja justo dar-se ao luxo, ao menos naqueles momentos cruciais e decisivos da vida, de manifestar verdadeira e honesta ira, a despeito de termos sido ensinados a percebê-la como “pecado capital”.

Fonte: http://www.rose-mcgowan.com/gallery/albums/Movies/2007%20Grindhouse/Lobby%20Cards/PlanetTerror-LobbyCards_003.jpg

Esboço aqui o embrião de uma reflexão amoral, ainda que falha, e estou tentada a interpretar as manifestações da ira como o sincero grito dos injustiçados. Ainda que a injustiça neste caso resida, muitas vezes, na consciência do irado de ter sido vítima de uma falha grave no necessário sistema de autocontrole que nos permite viver em sociedade. Em síntese: é preciso ser hipócrita para existir relativamente incólume neste mundo. E os atenuantes ou agravantes de nossa hipocrisia cotidiana são, mais do que uma questão de caráter, ditados por fatores externos, ligados ao nosso instinto de sobrevivência. Explico: se desejo permanecer num emprego, a despeito do meu desprezo pela incompetência do meu chefe, não o critico. Simples assim.

Veja, se não estamos sós no mundo e dependemos de uma rede de relações para existirmos, desde muito cedo aprendemos a calar nossas mais sinceras opiniões e a frear em nós todo e qualquer gesto que possa ferir, ofender, depreciar ou mesmo interferir no bem estar de nossos “semelhantes”. Trata-se de aprender a tolerar, respeitar, em suma, ter bons modos, ser ético, polido, “educado”.

Se um sujeito é cumpridor das regras de convivência socialmente impostas e, portanto, vive num esforço diário para exercê-las junto àqueles que o circundam, é natural que anseie por receber dos que o cercam algo semelhante.  


(Falling Down, Joel Schumacher, EUA/Fr, 1993)

Não me refiro aqui aos bons modos somente. Refiro-me à percepção mais ampla e genérica de que toda ação gera, de fato, uma reação. À ideia, que muitas pessoas rejeitam ou ignoram, de que os seus atos, sejam quais forem (bons ou maus – vide “a corrente do bem”), refletem na vida não apenas dos seus entes queridos mas, a imensa maioria das vezes, na de estranhos.

E não me deterei nos excêntricos, nem nos artistas, intelectuais ou outsiders, que sempre os houve no mundo, quase sempre minorias marginalizadas por necessidade, desejo ou oportunidade. Refiro-me ao sujeito ordinário, a mim e, provavelmente, a você.

Parece-me uma conta fácil de se fazer: o que não desejo para mim, não proporciono aos outros. Num mundo ideal, viveríamos assim. 

O sentimento de injustiça ao qual aludo (e creio ser um grande motivador para a ira e, por meio dela, para ações deselegantes, grosseiras, agressivas e - no limite – violentas) deriva, muitas vezes, da consciência de que a energia investida em viver segundo as regras sociais não gera um retorno satisfatório. E este sentimento é cumulativo. Nenhum “injustiçado” consegue com tranquilidade zerar o seu “injustiçômetro” a cada manhã. Muito embora, é verdade, existam pessoas mais espiritualmente evoluídas, mais emocionalmente equilibradas do que outras.

Fonte: http://ocaosreina.files.wordpress.com/2011/08/caosreina2.jpg

Para dizer o óbvio: as pessoas são diferentes.  Eu prefiro pegar a esteira de Lars Von Trier e crer que o “caos reina”.

Fomos ensinados a viver “sob controle”. Nossa natureza, entretanto, é caótica. Não roubamos, assassinamos e violamos por termos sido ensinados a viver assim, de modo a garantir a sobrevivência dos grupos, fortalecê-los e, com isso, alcançar a nossa civilidade. E, principalmente, por nos terem sido impostas regras e sanções, sejam elas oriundas da fé ou do Estado.

O “amor ao próximo” e a “solidariedade” são a versões “hollywoodianas” de algo em nós – respeitar e ser generoso – que reside no limiar entre o caráter e a circunstância.

Se eu escolho (em conjunto ou individualmente) um determinado percurso na vida, que implica em ações cotidianas no meu universo familiar, afetivo e profissional, e trabalho honestamente por ele (sem ludibriar ou prejudicar ninguém) na direção da construção de um “projeto” (fadado a falhas no planejamento, frustrações e ajustes, obviamente) e, no meio do caminho, esta escolha pessoal é certeiramente atingida pela interferência de um terceiro, desestabilizando descaradamente o meu caminho com a promessa ao(s) meu(s) parceiro(s) de maior satisfação, benefícios, lucro ou felicidade num outro empreendimento, eu não tenho o direito de me indignar? 

Ser tolhido de projetar e perseguir o futuro, bem como de conservar e desfrutar do presente, não é uma forma de ser roubado? Se fosse com a sua vida, você não ficaria irado e mergulhado em sentimentos e pensamentos nada politicamente corretos? Bill, o furioso Michael Douglas de Joel Schumacher, tornou-se icônico neste sentido. E, num exemplo infinitamente menos mass media, Medea (aqui, a de Lars) também. Quem de nós ousaria não reconhecer a si mesmo em algum traço de sua humanidade? 


 (Medea, Lars Von Trier, Dinamarca, 1987.)

O fato é que, aos “educados” resta a catarse simbólica de imaginar-se (num sonho ou delírio) esmagando o crânio do forasteiro, ou imagem qualquer que o valha. Eu? Eu tenho delírios de um sermão arrasador, de uma lavada discursiva homérica, e procuro voltar a dormir.

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Tento pensar para além do senso comum. Em alguns dias sou mais feliz nisso do que em outros. Quem eu sou não pode ser definido pelo que tenho feito apenas e, francamente, é o que menos importa. Entretanto, para quem quer saber sobre o meu trabalho, o caminho oficial é o http://lattes.cnpq.br/2396739928093839