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sexta-feira, 16 de março de 2012

Cinema, urubus e bruxarias


Não falarei sobre urubus, antes de mais. Foi apenas um trocadilho infame. 

Questões de "foro íntimo" atrasaram as postagens programadas para a semana, sorry for that. Somente hoje pude, vejam, ler o Pondé da segunda! (Mas o "The walking dead" sagrado da terça eu vi. E vou sim escrever logo sobre isso, já que a cada semana sigo mais convencida da força simbólica que o apocalipse zumbi tem em nossos dias.)

O fato é que, segundos antes de chegar ao texto do filósofo, eu lia a notícia que anuncia a estréia no Brasil da nova e deliciosa - mas nem por isso pouco trágica - comédia de Nanni Moretti: Habemus Papam. Pensei: taí, vou escrever algo sobre este longa italiano do qual gostei muito, e que, com o pretexto de desvendar os bastidores de um Conclave, trata com bom humor ímpar de alguns dos mais profundos impasses da alma humana frente às exigências da vida. Além de, muito importante, ter me ajudado a não infartar durante as várias turbulências que enfrentei num vôo de volta da Bahia neste ano. 

 

Eis que, entretanto, o texto do Pondé traz uma temática, digamos assim, mais "contundente". E que a mi me gusta e interessa há muito: a perseguição às "bruxas" realizada pelos tribunais de inquisição, sob o olhar atento e extasiado do povão. Claro que o tema vem em Pondé para ilustrar algo mais interessante ainda: a datação, digamos, da própria ideia de heresia, que transcende as "orientações" presentes nas escrituras, bem como aspectos morais e éticos, para dialogar com o dado cultural, social e político.

Bacana, não? Com algum "samba-no-pé" o assunto pode até ser linkado ao próprio longa de Moretti, já que, tanto num caso quanto no outro, é a condução da interpretação das Escrituras Sagradas feita lááá no Vaticano quem determina o desenrolar das tramas, lato e stricto sensu.

 

Acerca da questão da perseguição às mulheres e antes da leitura que ora vos recomendo, evoco duas referências fílmicas de qualidade: A primeira data de 1922, e trata-se de um documentário bastante interessante que dialoga diretamente com um dos livros mencionados por Pondé, o Malleus Maleficarum, traduzido como O martelo das feiticeiras, e que nada mais é do que um manual medieval para a identificação, inquisição, tortura e execução de mulheres suspeitas de bruxaria. O título do documentário é Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos, uma produção sueco-dinamarquesa dirigida por Benjamin Christensen que, tão neutro quanto possível, para além de descrever o processo de identificação e combate à feitiçaria, aponta a igorância, o medo e o abuso de poder envolvidos. É de arrepiar, não apenas pela qualidade, mas também pela capacidade de manter-se interessante e atraente ainda hoje, tempos em que os efeitos especiais seduzem muito mais do que a essência das narrativas. (Sobre isso cabe comentar que recentemente assisti O gabinete do Dr Calligari e penso em, em breve, juntá-lo a outras obras das décadas de 20 e 30 que são referência no gênero e escrever algo).

 

Minha segunda "evocação" é o já mencionado Anticristo (2009), polêmico longa do também dinamarquês Lars Von Trier, que traz nas pesquisas de doutoramento da protagonista - a questão do femicídio - tanto o argumento para o desenrolar da trama quanto o mote para a interpretação de uma imensa quantidade de símbolos belamente distribuídos filme adentro.

É isso! O Pondé da semana segue abaixo, mais explicativo em seu estilo do que o usual, mas divertido em sua dor como sempre.

Domingão no Parque - Luiz Felipe Pondé 

Folha de São Paulo - Ilustrada,  12/03/2012

Uma das coisas que mais me espantam é o encanto que muita gente alimenta pelos hereges medievais, associado à quase total ignorância sobre suas heresias. Confundem-se manias "teenagers" com heresias sérias.

Faça uma "regressão para vidas passadas" em alguém e verá que ela foi uma bruxa queimada na Idade Média ou algo semelhante. E ela acha isso chique porque pensa nessa "bruxa" queimando sutiã em Paris no século 14.

Não conheço ninguém que tenha sido uma aborígene insignificante (sem querer ofender os aborígenes, é claro, trata-se de uma cultura sem a qual o mundo não sobreviveria).

Coitadas dessas "bruxas". Para começar, pelo menos no universo entre o que chamamos hoje de França, Bélgica, Holanda e Alemanha (região do rio Reno), entre os séculos 13 e 15, essas mulheres não se diziam bruxas, mas sim cristãs puríssimas.

O famoso livro "Martelo das Bruxas" (Malleus Maleficarum, para os íntimos), escrito no século 15, era um manual para "lidar" com essas cristãs "béguines" (termo sem tradução decente em português porque chamá-las de "beatas" é maldade).

Quando você ouvir alguém se referir a essas mulheres como "bruxas", tenha certeza que ele não sabe do que está falando. Caras como os que escreveram o "Malleus" é que chamavam essas mulheres de bruxas. Elas falavam de Deus, de caridade, de amor, de conhecimento "direto de Deus" e seus desdobramentos (aqui residia o principal problema). A partir do século 17, mais ou menos, passamos a chamar essas mulheres de místicas.

Anos atrás, comecei a pesquisar alguns textos dessas místicas medievais. Interessava-me o fato de que muitas delas tinham sido consideradas hereges.

Entre 1994 e 2003, entre Paris e Marburg (Alemanha), me dediquei a duas delas mais cuidadosamente, Marguerite Porete e Mechthild von Magdeburg.

A primeira foi queimada como herege em 11 de junho de 1310, em Paris, place de la Grève (reza a lenda que não deu um pio enquanto ardia na fogueira). A segunda morreu uma morte razoavelmente tranquila em alguma data desconhecida entre 1282 e 1294, num mosteiro, apesar de ter passado por apuros com a Inquisição e de ter sido ajudada, pelo que parece, por um amigo ou primo abade poderoso da região.
O título do livro queimado com a Porete é "Le Miroir des Simples Âmes Anéantis" (o espelho das almas simples e nadificadas). Já o da alemã que escapou do pior é "Das fliessende Licht der Gottheit" (a luz fluente da deidade).

Ambos trazem a marca dos excessos dessa escola mística chamada de renana: elas e Deus são da mesma substância, de onde se deduz, entre outras coisas, que elas não precisavam seguir códigos morais exteriores como os que não sabiam o que elas sabiam.

Elas ("almas liberadas", "nadas divinos") eram sem "matéria de criatura", logo, Deus. A Igreja e (quase) todo mundo via nisso simples soberba desmedida.

A esse "erro de doutrina", o Concílio de Viena de 1313, sobre essas "béguines", chamou de "confusão de substâncias".

Se recuperarmos o que nos diz o grande historiador Huizinga em seu "Outono da Idade Média" (ed. Cosac Naify), a execução desses hereges era um "domingão no parque".

As famílias iam com seu ovo duro, suas músicas prediletas (estou fazendo uma adaptação irônica do texto de Huizinga aos dias atuais), seus cachorros, e faziam tai chi enquanto esperavam a criminosa chegar. Os homens comparavam seus cavalos ou carroças e as mulheres se vangloriavam, em silêncio, por seus belos seios e belas pernas. As feias, como sempre, ficavam bravas com o sorriso seguro das mais graciosas.
Mas o melhor mesmo era o interesse das crianças e os tomates podres que seus pais davam para elas para que brincassem de jogá-los nos hereges. Alguns pais se emocionavam com a precisão de alguns de seus pequenos príncipes.

Herege, hoje, é chique, mas lá, você estaria jogando pedra nela como numa "Geni". Você a veria como se vê hoje um pedófilo, um reacionário, um capitalista porco, enfim, um desgraçado, uma prostituta, que todo mundo diz que é "bonitinha", mas todo mundo detesta (menos os consumidores).

quinta-feira, 8 de março de 2012

Maternidade, Inferno e Sétima Arte - 3ª e última parte

Quando comecei a burilar a ideia que resultaria nesta primeira série temática, sabia que teria dificuldades para realizar recortes, dada a quantidade imensa de obras que, à sua maneira, dariam conta de exemplificar com qualidade o texto. 

A questão da maternidade, como condição para a vida de todas as espécies, é certamente tema fértil. O que me interessava, entretanto, era chamar a atenção para um aspecto em especial: aquelas narrativas fílmicas cujo cerne é a discussão sobre a ambiguidade da figura materna. Ambiguidade esta que se constrói no desvelamento de nuances sombrias da figura maternal sem, contudo, apagar o seu caráter intrinsecamente ligado ao amor, à entrega e  à generosidade. A questão era pensar as obras que se fazem a partir justamente da tensão - e não anulação - entre a natural relação de dependência afetiva construída entre mães e filhos e, concomitantemente, aos males, dores e conflitos resultantes desta.

Ainda assim, seria possível, por exemplo, optar por um recorte de gênero. Coisa que não fiz. Aliás, procurei chamar atenção no primeiro texto da série para o fato de o tema ser fértil a diferentes gêneros, dependendo da condução da tensão exposta, bem como da opção da narrativa por assumir ou não uma postura, digamos, maniqueísta, em relação a essa tensão. Interessavam-me menos as óbvias, embora assustadoras, mães deliberadamente más. O "mal" ao qual o "inferno" do título da série se refere não deveria ser necessariamente um traço acentuado do caráter das mães em questão. E nem dos filhos, simplesmente. Isso serviria muito bem a narrativas de horror, em que mulheres inocentes engendram o filho do "coisa ruim", como tem-se visto nos bons e maus herdeiros de O bebê de Rosimary (1968), de Polanski. Recentemente, aliás, acompanhei a primeira temporada da série American Horror Story (criada por Ryan Murphy e Brad Falchuck), em que esta questão é trabalhada de modo muito competente, numa espécie de homenagem, infelizmente só identificada por aqueles que detêm o repertório dos grandes clássicos do cinema de horror.

Jessica Lange, fenomenal como Constance Langdon em AHS, e a "encomenda"
Penso que uma narrativa torna-se tanto mais complexa e interessante, quanto mais se aproxima da complexidade e ambiguidade intrínsecas à nossa condição enquanto humanos. Nossa tendência a relativizar tudo aquilo para o que não estamos seguros de formar uma opinião é tão prejudicial quanto, entendo, a tendência que temos para não relativizar a forma como produzimos e administramos nossos afetos. 

No campo doa afetos, é preciso que se mergulhe em certezas e posições absolutas, sob o risco de ser-se rotulado sujeito inseguro, mal resolvido ou emocionalmente doente. Que pena. Creio que muito se sofre mundo afora justamente por criarmos expectativas radicais e puristas neste sentido. 

Quero dizer com isso o que muitos já sabem: amor e ódio, desejo e repulsa, paixões que são, coexistem em tensão constante, cujo limiar é sim muito tênue, muito frágil. E nós, humanos, espertinhos que somos, criamos muitas estratégias para mascarar, subverter e descontaminar os nossos afetos, de maneira que possamos simplesmente não questionar o nosso amor, por exemplo, ante os estados de angústia nos quais mergulhamos vida afora.

Em outros termos: não há lei que obrigue mães e filhos a amarem-se incondicional e deliberadamente, de modo linear, indiscutível e blindado em relação aos tropeços da vida. Mas fingimos que há, para que possamos por o dedo em riste no nariz daqueles que esperamos que nos amem, ou que esperam por nós serem amados.

Esta sede por equilíbrio e segurança é, a meu ver, a responsável pela repulsa que experimentamos ante narrativas em que filhos demonstram sentimentos "ruins" em relação a mães - e vice-versa. Reconhecer traços de nossa humanidade em personagens assim tão "cruéis" é uma forma de sermos obrigados a assumir a fragilidade de nossa própria estrutura emocional e é, pessoalmente, o tipo de catarse que mais me interessa.

Charlotte Gainsburg, premiada por sua maternidade em Anticristo
Suspeito que o meu interesse neste viés tenha se materializado a partir de Anticristo (2009), de Lars Von Trier. Ali, narrativa acerca de um processo de assimilação da perda ou, em outras palavras, de um doloroso exercício de expurgação da culpa, "ela" é a mãe que, talvez, tenha sido responsável pela morte do próprio bebê. Diga-se de passagem, em condições bastante favoráveis aos detentores do dedo em riste: durante uma relação sexual. O que se discute ali, a "condição" feminina na cultura patriarcal, remonta simbolicamente ao Édipo freudiano mas, também, à Medeia de Eurípedes.

Hoje, trago um dos filmes mais pungentes ao qual assisti nos últimos tempos: Feliz que minha mãe esteja viva (Je suis heureux que ma mère soit vivante, Fr, 2009), dirigido por Claude e Nathan Miller.

Trata-se de uma história sobre abandono. O que, por si, já permite inferir o seu desenrolar. Mas não é tão simples. A tensão narrativa vai sendo construída primeiramente, no esforço por se retratar o pequeno Thomas Jouvet, que aos cinco anos vive com uma jovem e irresponsável mãe e ajuda a cuidar de seu irmãozinho Patrick, ainda um bebê. A despeito de qualquer dificuldade, Thomas é louco pela mãe. E é este o traço de sua personalidade que conduzirá todos os acontecimentos posteriores ao período em que ele e o irmão são dados para adoção. 


Apesar da "sorte" de terem sido escolhidos juntos por um casal amoroso e bem sucedido, a rejeição de Thomas à vida que lhe foi oferecida e a obsessão em localizar a mãe para finalmente compreender suas razões dominam os 14 anos seguintes. Introvertido, agressivo, contido, o garoto busca exaustivamente por aquela mulher que prometeu a ele que viria buscá-los  - e pelo contato com as limitações e falências dela, inevitavelmente. Não custa sugerir atenção para a tensão sexual que se estabelece, embora de modo muito sutil, realmente velado. Sobre relações incestuosas, aliás, fiz algumas sugestões no segundo texto desta série.

Mais do que isso, seria dar spoilers, e o filme merece ser visto. Menos expressivo na construção de cenas simbólicas que os anteriormente comentados, Feliz que minha mãe esteja viva opta por um realismo bastante útil para a composição de sua atmosfera. Ainda assim, ressalto a breve passagem em que o menino Thomas usa a mãozinha fechada em círculo como uma espécie de luneta para delimitar o foco de seu interesse. Em tempo: o título remete a uma fala de Thomas nos instantes finais da película e estes, eu garanto, são de arrepiar! Espiem!


Ainda, caso o inferno seja a injustiça cometida contra um filho e o percurso doloroso de sua mãe para protegê-lo, há espaço para o belo drama sul-coreano Mother-em busca pela verdade (Madeo, 2009, dir. Joon-ho Bong).
E será o traçado do inferno também a dor de uma mãe cuja filha desaparecida pode ter sido morta num nos ataques terroristas em Londres, como no comovente franco-argelino Destinos Cruzados (London River, 2009, dir. Rachid Bouchareb). Mas, nesses casos, a questão da ambiguidade praticamente desaparece.

Em que Paris está a sua meia-noite?

Ah, eu poderia aproveitar o ensejo e, tendo em vista a data, escrever sobre as mulheres. Mas elas, enquanto gênero e nas suas especificidades, muito embora tenham povoado minha pesquisa de doutoramento defendida mais dois anos atrás, francamente não são algo que eu deseje por hora em meus pensamentos. Ando um tanto enjoada, inclusive, de pensar na forma como o fato de ser mulher determina a condução do meu próprio caminho. Bah. Um feliz dia para as mocinhas, de todo modo. Hoje e sempre que possível.

Desejo pensar sobre sonhos, projetos, metas, que todos os temos e cremos persegui-los. Sejam sonhos singelos ou projetos megalômanos, penso que a dinâmica de uma vida saudável e produtiva depende muito da manutenção, não dos sonhos em si, mas do nosso movimento cotidiano na direção deles. E, que interessante, existem muitas diferentes dimensões para sonhar, desde aqueles inalcançáveis projetos que servem apenas como inspiração, até o planejamento que permite a aquisição de bens, a regularização de uma situação, a oficialização de um relacionamento. Cada um sonha conforme pode e o quanto aguenta, afinal.


O texto que recomendo abaixo foi escrito pelo psicanalista Contardo Calligaris, uma leitura que eu persigo, muito embora me agrade algumas vezes mais do que em outras, por ocasião do lançamento do último longa de Woody Allen, Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, Es/Eua, 2011). Filme que, aliás, tive o prazer de assistir numa das minhas salas de cinema favoritas (Cine Livraria Cultura, o antigo Bom Bril), e na companhia de algumas das pessoas que mais tem me permitido sonhar ao longo da vida. Pelo menos, aquela sorte de sonhos que me permitem compor uma persona muito próxima do meu ideal.

Nele, Calligaris usa como ponto para reflexão as inquietações do protagonista, escritor frustado e "vendido" para o sistema, que deseja escrever alta literatura e finalmente se vê diante da possibilidade de ter seu projeto lido por grandes referências de sua biblioteca. Esta divertida pegada surreal faz do longa uma viagem deliciosa pelos delírios de qualquer leitor, escritor ou amante da literatura. Poder sentar num bistrô com seus "mestres" e trocar figurinhas com pessoas de fato interessadas no que você tem a dizer... que sonho! (perdão pelo trocadilho infame). O que Calligaris faz, entretanto, é partir desta bela imagem para nos levar a pensarmos sobre uma tentação muito grande - da qual sou vítima confessa - a de abrir mão de nossos sonhos em nome de uma temor mascarado de falhar.
Algum tempo atrás, ouvi de um grande amigo - em muitos sentidos, um "mestre" - que, para a obtenção do sucesso profissional, a diferença entre uma e outra pessoa sobre as quais falávamos,  não estaria no talento (ou sensibilidade, vocação, brilhantismo, wathever) e sim na disciplina, que ele cunhou como "pé-de-boisismo". Tenho absoluta certeza de que, no mundo em que vivemos, ele está coberto de razão. Ainda assim, meu coração taurino continua convencido de que talento é um bem inato, enquanto disciplina se adquire, tal qual músculos definidos na academia. E isso depende muito da equação que direciona os anseios para a obtenção de metas - coisa dos disciplinados, ou para o vislumbramento do sonho, coisa de boa parte dos talentosos (ou não) e dos frustrados.

A maturidade traz o demérito da consciência de estarmos sendo constantemente julgados, avaliados, rotulados, inclusive, pelas pessoas mais próximas, que até nos amam. Para o sonhador, isso não é nada bom. Não enquadrar-se num PERFIL, não atender às expectativas do meio quando se é bem jovem já não é a forma mais serena de viver. Se disso depende o pagamento de suas contas então, muito pior.

O fato é que em alguns momentos, a autocrítica e o medo do julgamento embotam os sonhos. Da mesma maneira que nos é dada liberdade para sonhar, temos a liberdade de escolher em qual direção seguir: na construção de projetos ou numa rotina de sonhos embalada por quem poderíamos ter sido se "isso ou aquilo". E tornar-se amargo é algo que ninguém quer. Daí a necessidade de se perguntar algumas vezes na vida em que Paris fica a sua meia-noite. Em que esquina escura é preciso esperar para que seja possível viver mais em acordo com os próprios projetos.

Enfim, não pretendo concluir nada. Este longo preâmbulo, antes de se tornar brega e chato, vem apenas para introduzir o texto:


É FÁCIL DESISTIR DOS SONHOS - CONTARDO CALLIGARIS

Folha de São Paulo, Ilustrada, 07 de julho de 2011

GIL PENDER, o protagonista do último filme de Woody Allen, "Meia-Noite em Paris", quer deixar de escrever roteiros de sucesso (que ele mesmo acha medíocres) para se dedicar a coisas "mais sérias" e menos lucrativas: um romance, por exemplo. Ele acumulou dinheiro suficiente para tentar essa aventura por um tempo, em Paris, como um escritor americano dos anos 1920.

Infelizmente, Pender está prestes a se casar com uma noiva que aprecia muito seu sucesso atual, mas não tem gosto algum pela incerteza (financeira) de seu sonho. Tudo indica que ele se dobrará às expectativas da noiva, dos futuros sogros e do mundo, renunciando a seu desejo. Talvez seja por causa dessa renúncia, aliás, que noiva e sogros o desprezam (todo o mundo acaba desprezando o desejo de quem despreza seu próprio desejo).

Mas eis que, na noite parisiense, alguns fantasmas do passado levam Pender para a época na qual poderia viver uma vida diferente e mais intensa -a época na qual seria capaz de fazer apostas arriscadas.

A idade de ouro de Pender é a Paris de Hemingway, Fitzgerald, Cole Porter, Picasso etc. Como disse Gertrude Stein (outra protagonista do sonho do herói), eles são a geração perdida, entre uma guerra terrível e outra pior por vir (isso ela não sabia, mas talvez pressentisse). Por que eles fariam a admiração de Pender e a nossa? Hemingway responde quando explica a Pender que, para amar e escrever, é preciso não ter medo da morte. Claro, não ter medo da morte talvez seja pedir muito, mas Pender poderia mesmo se beneficiar com um pouco mais de coragem; se conseguisse decidir sua vida sem medo da noiva e dos sogros, seria um progresso.

Concordo com o que escreveu Marcelo Coelho, em artigo neste mesmo espaço na edição de 22 de junho: uma moral do filme é que "temos só uma vida para viver -a nossa", ou seja, tudo bem sonhar com a idade de ouro, à condição de acordar um dia.

Agora, o que emperra a vida de Pender não é seu sonho nostálgico, é o presente. A nostalgia, aliás, é seu recurso para não se esquecer completamente de seus próprios sonhos. É como se, para preservar seu desejo, ele o situasse numa outra época. Mas preservá-lo de quem?

Antes de mais nada, um conselho. Acontece, às vezes, que nosso sucesso não tenha nada a ver com nossos sonhos -por exemplo, você queria ser promotor de Justiça, mas fez algum dinheiro com a imobiliária de família e aí ficou, renunciando a seu sonho.

Nesses casos, uma precaução: case-se com alguém que ame seu sonho frustrado e não só seu sucesso; sem isso, inelutavelmente, chegará o dia em que você acusará seu casal de ter sido a causa de sua renúncia. Em outras palavras, é possível e, às vezes, necessário renunciar a nossos sonhos, mas é preciso escolher como parceiro alguém que goste desses sonhos e dos jeitos um pouco malucos que usamos para acalentá-los (no caso de Pender, passeios por Paris à meia-noite e na chuva).

Voltemos agora à pergunta: contra quem Pender precisou preservar seu desejo, mandando-o para outra época? Contra a noiva que desconsiderava seus sonhos? Aqui vem outra moral do filme.

Pender não é nenhum caso raro: todos nós, em média, dedicamos mais energia à tentativa de silenciar nossos sonhos do que à tentativa de realizá-los. Muitos dizem que desistiram de sonhos dos quais os pais não gostavam por medo de perder o amor deles. Mas por que Pender recearia perder o amor da noiva, que ele não ama, e dos sogros, que ele ama ainda menos?

O fato é que somos complacentes com as expectativas dos outros (que amamos ou não) à condição que elas nos convidem a desistir de nosso desejo. É isso mesmo, a frase que precede não saiu errada: adoramos nos conformar (ou nos resignar) às expectativas que mais nos afastam de nossos sonhos. Aparentemente, preferimos ser o romancista potencial que foi impedido de mostrar seu talento a ser o romancista que tentou e revelou ao mundo que não tinha talento. Desistindo de nossos sonhos, evitamos fracassar nos projetos que mais nos importam.

Em suma, da próxima vez que você se queixar de que seu casal afasta você de seus sonhos, lembre-se: foi você quem o escolheu.

E mais um conselho: se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva do seu lado, não fuja; molhe-se.

ccalligari@uol.com.br

@ccalligaris 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Apresentação


"Os Cães de Santiago"  é o título para um romance ainda não escrito. Preferencialmente, que verse sobre a desumanidade (e possivelmente jamais escrito por mim, já que a prosa de ficção, para além de minhas atividades acadêmicas, jamais me pareceu matéria para a qual eu tenha qualquer habilidade). Estive em Santiago em julho de 2011 e notei por lá uma quantidade impressionante de belos e enormes cães errantes. Doces, elegantes e simpáticos andarilhos. Aos quase 35 anos, já não tenho pudor nenhum em admitir que minha admiração e afeto pelos não humanos suplanta qualquer traço dela que eu nutra pelos próprios. Ocorre que, em uma tarde daquele julho, sentada em frente ao Mercado Municipal da capital chilena, um perro enorme veio acomodar-se sossegadamente bem aos meus pés. Pensei n'Os Cães de Santiago como um belo título, fosse para o que fosse.

Procurei este espaço pela absoluta impossibilidade de abandonar a minha vida virtual, por menor que seja o tempo disponível. Nos últimos dias, venho experimentando uma espécie de crise de abstinência. Hábitos são hábitos. Minhas leituras matinais, o flanar pelas informações culturais, os pitacos no comportamento alheio, as dicas de filmes, os poemas preferidos, as canções e imagens que me tocam, enfim, tudo o que vinha circulando nos últimos três anos no meu perfil do Facebook recentemente deletado deve aparecer por aqui. É a minha primeira experiência como blogueira e tenho a impressão de que será mais livre, menos engessada nos padrões das redes sociais. Sinto uma espécie de necessidade de amadurecimento autoral, algo como uma seriedade descompromissada, mas que, contraditoriamente, se origina na crença narcísica de que tenho um compromisso com aqueles que antes me "liam" e que abandonei. Ninguém torna públicos seus pensamentos e sua rotina se não dispõe disso, mas creio que ainda seja cedo para classificar ou nomear qualquer coisa. Talvez este novo contexto me estimule a escrever mais, "ensaiar" mais, para além dos recortes e elencos que venho realizando. Afinal de contas, foi o prazer em escrever o meu primeiro impulso na direção da formação que me fez profissional das Letras. Em algum canto de mim, tantos desencantos depois, ele ainda respira.

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Tento pensar para além do senso comum. Em alguns dias sou mais feliz nisso do que em outros. Quem eu sou não pode ser definido pelo que tenho feito apenas e, francamente, é o que menos importa. Entretanto, para quem quer saber sobre o meu trabalho, o caminho oficial é o http://lattes.cnpq.br/2396739928093839