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sexta-feira, 16 de março de 2012

Cinema, urubus e bruxarias


Não falarei sobre urubus, antes de mais. Foi apenas um trocadilho infame. 

Questões de "foro íntimo" atrasaram as postagens programadas para a semana, sorry for that. Somente hoje pude, vejam, ler o Pondé da segunda! (Mas o "The walking dead" sagrado da terça eu vi. E vou sim escrever logo sobre isso, já que a cada semana sigo mais convencida da força simbólica que o apocalipse zumbi tem em nossos dias.)

O fato é que, segundos antes de chegar ao texto do filósofo, eu lia a notícia que anuncia a estréia no Brasil da nova e deliciosa - mas nem por isso pouco trágica - comédia de Nanni Moretti: Habemus Papam. Pensei: taí, vou escrever algo sobre este longa italiano do qual gostei muito, e que, com o pretexto de desvendar os bastidores de um Conclave, trata com bom humor ímpar de alguns dos mais profundos impasses da alma humana frente às exigências da vida. Além de, muito importante, ter me ajudado a não infartar durante as várias turbulências que enfrentei num vôo de volta da Bahia neste ano. 

 

Eis que, entretanto, o texto do Pondé traz uma temática, digamos assim, mais "contundente". E que a mi me gusta e interessa há muito: a perseguição às "bruxas" realizada pelos tribunais de inquisição, sob o olhar atento e extasiado do povão. Claro que o tema vem em Pondé para ilustrar algo mais interessante ainda: a datação, digamos, da própria ideia de heresia, que transcende as "orientações" presentes nas escrituras, bem como aspectos morais e éticos, para dialogar com o dado cultural, social e político.

Bacana, não? Com algum "samba-no-pé" o assunto pode até ser linkado ao próprio longa de Moretti, já que, tanto num caso quanto no outro, é a condução da interpretação das Escrituras Sagradas feita lááá no Vaticano quem determina o desenrolar das tramas, lato e stricto sensu.

 

Acerca da questão da perseguição às mulheres e antes da leitura que ora vos recomendo, evoco duas referências fílmicas de qualidade: A primeira data de 1922, e trata-se de um documentário bastante interessante que dialoga diretamente com um dos livros mencionados por Pondé, o Malleus Maleficarum, traduzido como O martelo das feiticeiras, e que nada mais é do que um manual medieval para a identificação, inquisição, tortura e execução de mulheres suspeitas de bruxaria. O título do documentário é Häxan - A Feitiçaria Através dos Tempos, uma produção sueco-dinamarquesa dirigida por Benjamin Christensen que, tão neutro quanto possível, para além de descrever o processo de identificação e combate à feitiçaria, aponta a igorância, o medo e o abuso de poder envolvidos. É de arrepiar, não apenas pela qualidade, mas também pela capacidade de manter-se interessante e atraente ainda hoje, tempos em que os efeitos especiais seduzem muito mais do que a essência das narrativas. (Sobre isso cabe comentar que recentemente assisti O gabinete do Dr Calligari e penso em, em breve, juntá-lo a outras obras das décadas de 20 e 30 que são referência no gênero e escrever algo).

 

Minha segunda "evocação" é o já mencionado Anticristo (2009), polêmico longa do também dinamarquês Lars Von Trier, que traz nas pesquisas de doutoramento da protagonista - a questão do femicídio - tanto o argumento para o desenrolar da trama quanto o mote para a interpretação de uma imensa quantidade de símbolos belamente distribuídos filme adentro.

É isso! O Pondé da semana segue abaixo, mais explicativo em seu estilo do que o usual, mas divertido em sua dor como sempre.

Domingão no Parque - Luiz Felipe Pondé 

Folha de São Paulo - Ilustrada,  12/03/2012

Uma das coisas que mais me espantam é o encanto que muita gente alimenta pelos hereges medievais, associado à quase total ignorância sobre suas heresias. Confundem-se manias "teenagers" com heresias sérias.

Faça uma "regressão para vidas passadas" em alguém e verá que ela foi uma bruxa queimada na Idade Média ou algo semelhante. E ela acha isso chique porque pensa nessa "bruxa" queimando sutiã em Paris no século 14.

Não conheço ninguém que tenha sido uma aborígene insignificante (sem querer ofender os aborígenes, é claro, trata-se de uma cultura sem a qual o mundo não sobreviveria).

Coitadas dessas "bruxas". Para começar, pelo menos no universo entre o que chamamos hoje de França, Bélgica, Holanda e Alemanha (região do rio Reno), entre os séculos 13 e 15, essas mulheres não se diziam bruxas, mas sim cristãs puríssimas.

O famoso livro "Martelo das Bruxas" (Malleus Maleficarum, para os íntimos), escrito no século 15, era um manual para "lidar" com essas cristãs "béguines" (termo sem tradução decente em português porque chamá-las de "beatas" é maldade).

Quando você ouvir alguém se referir a essas mulheres como "bruxas", tenha certeza que ele não sabe do que está falando. Caras como os que escreveram o "Malleus" é que chamavam essas mulheres de bruxas. Elas falavam de Deus, de caridade, de amor, de conhecimento "direto de Deus" e seus desdobramentos (aqui residia o principal problema). A partir do século 17, mais ou menos, passamos a chamar essas mulheres de místicas.

Anos atrás, comecei a pesquisar alguns textos dessas místicas medievais. Interessava-me o fato de que muitas delas tinham sido consideradas hereges.

Entre 1994 e 2003, entre Paris e Marburg (Alemanha), me dediquei a duas delas mais cuidadosamente, Marguerite Porete e Mechthild von Magdeburg.

A primeira foi queimada como herege em 11 de junho de 1310, em Paris, place de la Grève (reza a lenda que não deu um pio enquanto ardia na fogueira). A segunda morreu uma morte razoavelmente tranquila em alguma data desconhecida entre 1282 e 1294, num mosteiro, apesar de ter passado por apuros com a Inquisição e de ter sido ajudada, pelo que parece, por um amigo ou primo abade poderoso da região.
O título do livro queimado com a Porete é "Le Miroir des Simples Âmes Anéantis" (o espelho das almas simples e nadificadas). Já o da alemã que escapou do pior é "Das fliessende Licht der Gottheit" (a luz fluente da deidade).

Ambos trazem a marca dos excessos dessa escola mística chamada de renana: elas e Deus são da mesma substância, de onde se deduz, entre outras coisas, que elas não precisavam seguir códigos morais exteriores como os que não sabiam o que elas sabiam.

Elas ("almas liberadas", "nadas divinos") eram sem "matéria de criatura", logo, Deus. A Igreja e (quase) todo mundo via nisso simples soberba desmedida.

A esse "erro de doutrina", o Concílio de Viena de 1313, sobre essas "béguines", chamou de "confusão de substâncias".

Se recuperarmos o que nos diz o grande historiador Huizinga em seu "Outono da Idade Média" (ed. Cosac Naify), a execução desses hereges era um "domingão no parque".

As famílias iam com seu ovo duro, suas músicas prediletas (estou fazendo uma adaptação irônica do texto de Huizinga aos dias atuais), seus cachorros, e faziam tai chi enquanto esperavam a criminosa chegar. Os homens comparavam seus cavalos ou carroças e as mulheres se vangloriavam, em silêncio, por seus belos seios e belas pernas. As feias, como sempre, ficavam bravas com o sorriso seguro das mais graciosas.
Mas o melhor mesmo era o interesse das crianças e os tomates podres que seus pais davam para elas para que brincassem de jogá-los nos hereges. Alguns pais se emocionavam com a precisão de alguns de seus pequenos príncipes.

Herege, hoje, é chique, mas lá, você estaria jogando pedra nela como numa "Geni". Você a veria como se vê hoje um pedófilo, um reacionário, um capitalista porco, enfim, um desgraçado, uma prostituta, que todo mundo diz que é "bonitinha", mas todo mundo detesta (menos os consumidores).

segunda-feira, 5 de março de 2012

A invenção de Hugo e a esfinge de Pondé

Eis que andava eu extremamente compelida a finalmente organizar minhas impressões sobre alguns aspectos em particular da maternidade retratados no cinema - sobretudo francês - dos últimos anos, o que exigiu uma forte dose de veneno no meu coração, quando ontem, sozinha, resovi ir ver ao "A invenção de Hugo Cabret". Cinéfila de botequim que sou (literalmente, mas no bom sentido), e na iminência da TPM, deixei de lado qualquer visão mais pragmática da narrativa e fiz o pacto. Chorei horrores. E o meu envenenado coração mergulhou numa candura tamanha que cheguei em casa e revi o "Cinema Paradiso". Mas este post não é sobre nada disso, que ainda tenho outras ideias para um futuro comentário sobre metafilmes.



Acordei, contudo, ainda enbevecida e tomada de ternura e dei de cara com o Pondé meu de cada segunda-feira. Juntamente com o "The Walking Dead" sagrado de cada noite de terça, um vício. (Sobre isso, aliás, minha mania com zumbis, um post futuro, prometo).

Ainda que não me entenda exatamente uma discípula, sou obrigada a confessar meu apreço pelo cinismo do cara. Quem vem acompanhando a polêmica em torno da coluna da semana passada sabe que o texto não tem absolutamente nada de gratuito e, pelo contrário, é praticamente um adendo ao comentário que ele mesmo já havia publicado no final de semana, em resposta às reações negativas do público frente à alusão rodrigueana nada delicada na polêmica coluna. 
Somente o Luiz Felipe para me resgatar do risco de um diabete intelectual e me trazer de volta à realidade nesta segunda ensolarada. O post prometido deve sair do forno nas próximas horas. Obrigada!

Segue o feito:

Conhece-te a ti mesmo - Luiz Felipe Pondé
Folha de São Paulo - Ilustrada - 05/03/2012

Decidi mudar. Não serei mais aquela pessoa que acha que as pessoas não mudam e que não há história, mas sim um eterno retorno do mesmo. Nietzsche nunca mais, só Rousseau e seu estado de natureza angelical.
Acredito agora nas primaveras que cortam o mundo. Fui à livraria mais próxima, ou melhor, ao iPad mais próximo, e comprei um livro que me indicaram: "Dez passos para ser um novo Pondé", autoria de um certo sábio chinês que talvez seja um neto de coreano nascido na Califórnia de pais porto-riquenhos.
O primeiro passo é aprender a respirar. Sou dono da minha respiração agora. Em seguida, alimentação. Nunca mais carne vermelha. De início, ainda frango e peixe, mas em breve pretendo me tornar um amante das rúculas e alfaces, mas sempre pedindo perdão por precisar tirá-las de sua vida doce e promissora fazendo fotossíntese. Coca-Cola, nem pensar. Além do mais, é americana! Vinho, só natural.
Um segredo: continuarei a ir aos EUA porque um tênis lá custa cinco dólares! Irei escondido e voltarei com dez malas. Mas, temos ou não direito a ter tênis baratos? Acho uma falta de respeito proibir as pessoas de comprar tênis e jogos eletrônicos baratos em Miami.
Amarei a África. Abraçarei todas as ONGs do mundo. Direi às pessoas que elas são lindas e que o mundo faz parte de uma confederação cósmica. Os maias foram o povo mais avançado da história e decidi frequentar escolas aborígenes para aprender seu complexo modo de criar sociedades mais justas.
Religião: nunca mais essa coisa pesada de judaísmo e cristianismo, religiões que nos estragam com sua moral "imposta". Candomblé também não. Claro, como é religião africana, seria aprovada pelo meu novo eu, mas em alguns terreiros baixam pombagiras, e elas foram prostitutas e adúlteras, e não quero nem chegar perto disso! Aliás, decidi que essas coisas não existem.
Minha nova religião será uma forma de budismo light, aquele tipo que cultua a energia do universo. Sei que existem outros tipos, mas aqueles são autoritários. Toco as plantas com mais cuidado e percebi que elas são mais sábias do que Freud. Claro, comprei uma estatueta de um golfinho e joguei fora aquela esfinge do Édipo horrorosa que minha irmã me deu em Londres.
Nunca mais tragédia grega, agora só revistas que nos ensinam como o mundo pode ser melhor se arrumarmos nossos sofás de forma mais harmônica com as estrelas. Contratei uma mestra em decoração oriental. Ela é uma mulher supermagra e equilibrada. Imagine que curou um câncer em seu gato com reiki.
Direi para todo mundo que não gosto de dinheiro e que gosto das pessoas pelo que elas são e não pelo que elas têm. Perguntarei aos artistas com consciência social o que posso dizer e fazer.
Vendi meu horroroso carro inglês. Estou aprendendo a andar de bike (já sabia andar de bicicleta, mas bike é outra vibe). Ainda que tenha que atravessar as ladeiras das Perdizes para ir trabalhar (pena que ainda tenha que fazer parte desse mundo terrível de pessoas que trocam sua dignidade por dinheiro), já me explicaram que cada pedalada evita duas moléculas de gás carbônico, o que faz de mim uma pessoa com pegada de carbono sustentável.
Sexo, agora, só verde. Se provarem que esperma polui o mundo, evitarei o orgasmo, assim como na Idade Média dizem que mulheres santas evitavam gozar para serem puras aos olhos de Deus. Enfim, sinto-me leve com meu novo eu. Provavelmente, serei mais amado, e isso é que conta, não? Acredito, agora, num mundo melhor.
De repente, acordei. Sentei na cama. Ao lado, minha mulher dormia, com seu corpo de pecadora.
Fui até a biblioteca e vi os livros de Nietzsche, Freud, Pascal, Dostoiévski, Cioran, Bernanos, Roth, Camus, Nelson Rodrigues me olhando com olhos de profetas.
Os dedos indicadores em riste apontavam para mim.
Ao lado de minha estatueta da esfinge de Édipo, lia-se: "Conhece-te a ti mesmo". Voltara a ser eu mesmo. Esse miserável escravo das moiras, de felicidade complicada, doçura rara, boca seca e olhos vermelhos. Reconheci-me: sou o mesmo pecador de sempre, sem esperança.
ponde.folha@uol.com.br

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Tento pensar para além do senso comum. Em alguns dias sou mais feliz nisso do que em outros. Quem eu sou não pode ser definido pelo que tenho feito apenas e, francamente, é o que menos importa. Entretanto, para quem quer saber sobre o meu trabalho, o caminho oficial é o http://lattes.cnpq.br/2396739928093839